Criação a partir do nada: uma ideia coerente?

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Algo pode surgir do nada?

Algo pode, de fato, ser criado a partir do nada? Parece que não. Segundo muitos neo-ateus, a ideia de criação “ex nihilo” é irracional e incoerente. Logo, Deus não pode ter criado nem a matéria nem coisa alguma. Antes de tudo, existem dois sentidos bastante diferentes que “criação a partir do nada” pode ter. O primeiro é algo que surge a partir do nada absoluto, outra é de uma quantidade que não existia e foi “adicionada” por alguém ou algo no mundo. No primeiro caso, temos um surgimento a partir do “não-ser”. No segundo caso, uma substância(ser) causa uma outra substância inteiramente nova à existência. Aceitar o primeiro caso seria negar o Princípio da Razão Suficiente e, de forma alguma, eu estou preparado para sustentar essa afirmação. Mas o segundo caso é passível de defesa.

A ideia que está por trás do poder causal de um ser que é onipotente é a possibilidade metafísica, isto é, a possibilidade lógica ampla em concordância com a possibilidade lógica restrita. Aqui, a possibilidade de qual falo não é a mesma que utilizamos para dizer que seres humanos não podem nadar o Atlântico em 5 minutos, por exemplo, ou que porcos não podem gerar asas para si (possibilidade física). Ao afirmar que algo é possível logicamente, isso significa que a negação dessa ideia não é (e nem decorre de) nenhuma verdade necessária da lógica. Do mesmo modo, a possibilidade metafísica trata daquilo que é realizável. Por exemplo:

(1) “A” não é vermelho.

(1) É possível, porque não é necessário que algo seja vermelho. Assim, é possível que algo não seja vermelho.

Por outro lado, não é possível que:

(2) “A” não é idêntico a si mesmo.

Afirmar que (2) é verdadeiro seria negar a Lei da Identidade, uma lei cuja nenhuma mais correta pode ser concebida. Logo, (2) não é possível.

Um outro exemplo bastante pertinente nos é apresentado pelo filósofo Alvin Plantinga: a afirmação de que eu sou um número primo é uma impossibilidade metafísica, embora não envolva contradição lógica explícita. É exatamente esse o ponto: necessidade metafísica tem a ver com como as coisas/circunstâncias/situações devem ser, embora sua negação não envolva uma contradição lógica restrita.

Em seguimento, a criação ex nihilo é, então, possível? Eu diria que sim. É facilmente concebível, do ponto de vista lógico, que um dia eu acorde e me encontre com o poder de causar coisas que não existiam para a existência sem que elas sejam meras transformações de materiais já existentes. Eu poderia ser um pintor que, cada vez que meu pote de vermelho ou de azul acabasse, simplesmente fechasse os olhos e pensasse: “Que o pote de tinta fique cheio novamente”. Um microssegundo depois de um terminar meu pensamento, eu abro os olhos e vejo que a tinta está cheia de novo. Eu poderia também fechar os olhos e pensar: “Na próxima vez que abrir os olhos, terei um sexto dedo”. Ao abrir os olhos, veria que o dedo está lá. Vários testes poderiam ser feitos (como selar meu atelier, garantindo que nada entrou nem saiu durante a execução do ato e medir a quantidade de massa e energia antes e depois do teste) para garantir que esse material é inteiramente novo e não é uma mera transformação do que já existia dentro do meu estúdio. Não há nenhuma contradição lógica ampla ao contarmos uma história como essa. Logo, ainda que os seres humanos não tenham o poder de causar algo ex nihilo, essa é uma ação perfeitamente concebível. E se é possível do ponto de vista lógico (isto é, não há contradição explícita e trata-se de algo realizável) então um ser onipotente poderia fazê-la.


Conclusão e considerações finais:

De qualquer forma, esse argumento não seria necessariamente um problema para a crença em Deus, mas somente para uma doutrina de criação ex nihilo. Mas nem sequer como uma objeção a essa doutrina ele funciona. Dessa forma, concluo que o argumento da impossibilidade dessa ação está refutado.


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19 comentários:

  1. A questão é: Em que sentido aceitar a criação "ex nihilo" seria "negar o Princípio da Razão Suficiente"? Pode explicar melhor? Como assim "causa" uma substância nova? A origem da substância nova seria a substância anterior? Se for o caso, disso nós temos comprovação pela experiência, e tal conceito, concordo, é razoável e passível de defesa. Mas como poderia haver "adição"? Quando uma substância nova se origina de outra, parte - ou a totalidade - da anterior é reduzida. Até onde sei, não temos experiência de nenhuma substância que, ao dar origem a uma nova substância, mantenha-se em quantidade igual à anterior - salvo quando estabilizada por outra fonte externa. Tal conceito iria contra o princípio da conservação de energia. Para que o conceito funcione, a única energia existente eternamente (deus) deve transformar-se, totalmente ou em parte, para dar origem a uma nova energia/substância. Sobre questões de fato, quando não temos o auxílio da experiência, tudo pode ser logicamente possível. Mas se é possível, não significa que pode ser verdadeiro pois, sem a experiência, nunca saberemos se de fato é possível ou não. O raciocínio a priori nunca dará a ninguém certeza nenhuma sobre questões de fato. Se você nunca teve experiência de corpos se movendo sob a ação da gravidade, se eu te mostrar uma caneta e te perguntar o que aconteceria se eu a soltasse, você poderia imaginar infinitas possibilidades, todas igualmente plausíveis e lógicas, e não saberia como preferir uma à outra. A caneta poderia ficar flutuando, poderia começar a subir etc, tudo seria logicamente possível. O que nos dá a certeza de que não é possível uma caneta simplesmente explodir ao soltá-la é a experiência anterior que temos com canetas (comuns! rs), gravidade etc.

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    1. O princípio de razão suficiente é um princípio filosófico segundo o qual tudo o que acontece tem uma razão suficiente para ser assim e não de outra forma, em outras palavras, tudo tem uma explicação suficiente. Estruturalmente, para cada entidade X, se X existe, então há uma explicação suficiente do porquê X existe. Um exemplo da negação desse princípio é o surgimento de um ser a partir do não-ser, em outras palavras, o surgimento da existência a partir daquilo que não existe. O princípio da razão suficiente é, acima de tudo, um princípio lógico, portanto, se algo for contra esse princípio, torna-se, então, logicamente inconsistente. Uma substância nova seria uma substância de natureza diferente causada por outra, pura e simplesmente. Em outras palavras, o surgimento de um novo ente a partir de um ser, isto é, algo que veio à existência a partir de algo que já existia. Essa é a definição correta. O termo "adição", significa que algo foi adicionado à existência por algo que já existia, dando origem a uma substância inteiramente nova. Dar origem a uma substância nova, na verdade, quer dizer que houve a criação da matéria (a partir de algo que já existia, o criador, que por sua vez, é imaterial), e não a transformação de algo que já havia. A lei de identidade delimita a lógica. Tudo o que é logicamente concebível, logo, também o é para um ser onipotente, pois o que constitui tal onipotência é justamente a possibilidade lógica. É basicamente uma sucessão de causa e efeito. Obviamente, nós temos exemplos cotidianos que evidenciam a veracidade da lei da causalidade. Dito isso, por que negar o que é racional?

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    2. Vale ainda ressaltar que Deus não é uma energia, pois esta é, do ponto de vista científico, uma grandeza física. É um termo inadequado. A energia, por ter se originado na singularidade cosmológica, é parte constituinte do natural, não sendo portanto, logicamente possível existir anteriormente a esse período.

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    3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    4. Um ateu me passou Isto:


      É disso que se trata a metafísica, não a filosofia como um todo. Podemos imaginar infinitas coisas que não possuem nenhum impedimento lógico para existirem, mas tecer uma argumentação em favor de uma, em detrimento de outra, apenas com raciocínio a priori é, em minha opinião, algo impossível: esse é o resumo de minha argumentação. Utilizar raciocínio a priori em proposições acerca de questões de fato (ou verdades de fato, de acordo com Leibniz) é apenas dar asas à imaginação; é enredar-se em infindas especulações. O caso é que a maioria dos principais argumentos teístas se fundamentam em inferir a causa (deus) a partir de efeitos (o Universo e tudo que o compõe). Porém, para nós, tanto o efeito quanto a suposta causa são extremamente singulares para podermos inferir qualquer relação de causalidade, razão ou motivo. O grande problema também é misturar argumentação acerca de relação de ideias (conforme Hume) ou verdades da razão (conforme Leibniz) com questões de fato (conforme Hume) ou verdades de fato (conforme Leibniz). O assunto da origem do Universo refere-se a questões de fato, não a relação de ideias. "O contrário de qualquer fato é sempre possível, pois jamais pode implicar contradição, e a mente o concebe com tanta facilidade e distinção quanto se fosse inteiramente conforme a realidade" (Hume). Demonstrar que não há contradição lógica na proposição de que deus criou todas as coisas "ex nihilo" não ajuda em nada na argumentação em defesa da proposição que deus existe.

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    5. Devemos ter em mente que duas coisas são necessárias para que aceitemos que uma determinada coisa possa existir: Ausência de incoerência e ausência de contradições lógicas. Se algo é aparentemente coerente e não apresenta nenhuma contradição lógica interna(como "solteiro casado" ou "círculo com três ângulos"), então normalmente verificado pela não-quebra da Lei da Não-Contradição ou de uma definição, então é razoável que aceitemos que essa coisa pode existir. Como o conceito de um ser onipotente não é nem incoerente e tampouco ilógico, torna-se razoável que seja mesmo possível que Deus exista, validando assim todo o argumento. A partir deste momento, deve-se utilizar os conceitos de mundos possíveis para testar todas as possibilidades de uma causa primária. O que ele não entende é que somente um ser com as características inferidas pelo Kalam é compatível com tal causa. Esta é basicamente a etapa de evidências, que, por fim, são pesadas na balança da razão. É mais plausivelmente verdadeiro que um ser com as características em questão exista do que o contrário. Vale lembrar que Deus é um ente de grandeza máxima, ou seja, é dotado das melhores características que poderia se ter, tal como a onipotência. Sugiro que ele leia: http://razaoemquestao.blogspot.com.br/2013/08/o-argumento-ontologico-modal-de-alvin.html

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  2. http://filosofiaateista.blogspot.com.br/2013/11/deus-criou-o-universo-do-nada.html?m=1
    Outra objeção.

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    1. http://filosofiaateista.blogspot.com.br/2013/08/argumento-do-deus-transcendental-e.html?m=1

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    2. Essas objeções são realmente sérias? Difícil crer que alguém leve isso a sério...

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  3. https://googleweblight.com/?lite_url=https://rebeldiametafisica.wordpress.com/2012/08/21/criacao-ex-nihilo-sem-deus/&lc=pt-BR&s=1&m=871&ts=1440292952&sig=APONPFnEjIbFuNje6GGVmTWxy-QhF2YCmg

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  4. https://googleweblight.com/?lite_url=https://rebeldiametafisica.wordpress.com/2012/09/08/um-problema-para-os-apologistas-a-proposicao-do-nada-nada-vem-e-analitica-ou-sintetica/&ei=n1zDQmtt&lc=pt-BR&s=1&m=871&ts=1440292944&sig=APONPFm_7AwtXpY0bExjNTnOmmy0RsM5vA

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    1. São sempre as mesmas objeções falhas que pudemos observar nos textos anteriores. Não há nada de novo....

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    2. Pois é. Eles insistem. Parecem mulher de malandro...

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  5. http://m.youtube.com/watch?v=zh77xHV79Fw

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    1. Professor Lennox não possui a mesma oratória que Dr. Craig, porém ele elucidou temas tão complexos de maneira tão simplificada que conseguiu refutar completamente hawking

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    2. Ele elucidou a respeito de dois eventos recorrentes quando se trata de ciência:
      A ciência é uma construção humana, tanto quanto a história e a arte, porém diferente destas últimas, a ciência possui uma falsa autoridade cultural como se fosse a fonte de todo conhecimento.
      (2) cientistas estão procurando responder o que não é de sua competência ou escopo específico; Hawking comete uma inversão de planos em querer responder questões existenciais com leis da física (A física jamais poderá explicar as questões da metafísica e vice versa).

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    3. Além do fato de professor Lennox possuir um bom senso de humor, Craig e Plantinga, infelizmente não possuem (Talvez porque são muito dedicados a filosofia analítica).

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  6. A ciência é a busca constante do conhecimento, e os seres humanos são curiosos por natureza e sempre estão querendo saber o porque, sendo por este motivo que estamos com toda esta tecnologia que ajuda em nossas vidas. Se não fosse a ciência não teriamos uma qualidade de vida melhor em questão de saúde, meios de trnsporte e comunicação, etc. A ciência tente explicar o mundo através de fatos e provas, e formula teorias depois que todos colocam a prova e refutações. A religião acredita pela fé, pelo que aconteceu no passado, e passou de pessoa a pessoa oralmente, e depois foi escrita sobre a ótica de um povo, através de proverbios e parabolas, e na traduçao para a atualidade muitas palavras e frases, modificamum pouco o entendimento. A ciência simplismente descobre como deus fez e faz as coisas, por exemplo: Deus disse para o home da época , sem muito conhecimento, que o fez do barro, isto é vago, como se fosse mágica. Quando a curiosidade humana começa a questinor através de provas e pesquisas sobre a evolução dos seres, ficou claro que a maneira como Deus criou os seres humanos, usando como molde o tempo, moldando através do tempo cada estrutura até chegar no homem. O nada é o limite desta realidade, os átomos são semelhantes aos pixels que formam imagens virtuais, só que que de varias dimensões, como blocos de construção. Se decompormos em partes, vão ficando cada vez menores até desaparecerem desta realidaden e voltando a não existir. Deus é este nada, o ambiente onde tudo acontece,de onde surgiu o Universo, esta em todo lugar ao mesmo tempo, inclusive no presente, passado e futuro. Formado de possibilidades, tendo o poder de ação, isto é faz acontecer. O que chamamos de acaso, sorte ou destino, é a maneira minunciosa que os eventos acontecem fora da lógica humana, mais se desdobram harmonicamente e compassadamente, em uma história relacionando tudo, uma causa provocando a consequencia, ação provocando uma reação em cadeia.

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    1. Uma pequena "correção": a religião não acredita pela fé, isso tem outro nome: fideísmo. A religião acredita com base na razão.

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