Juízes da Verdade (Análise)

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Os Juízes da Verdade

Essa técnica é, de certa forma, uma mistura das técnicas “Se eu estou errado, me convença disso!” e Argumento da Incredulidade Pessoal com uma adição do papel de juiz do conhecimento pelo neo-ateu. Basicamente, ele aplicará a tática da seguinte maneira: dentro de uma discussão qualquer (que pode ser do tipo “Evangelize-me se for capaz”), ele vai pedir algum tipo de argumento contra a própria posição. Então ele dirá que “não se sente convencido”  pelo argumento e que portanto “é irracional acreditar nisso”. De cara, já sabemos que a alegação de que “Não se sente convencido” é somente falácia da incredulidade (ou convencimento) pessoal e não tem valor argumentativo nenhum. Também devemos lembrar que a discussão opera em um campo sobre a racionalidade das crenças de que Deus existe e que Deus não existe.

Qual é a maneira correta de encarar a racionalidade de uma crença? Essa é uma discussão longa, na qual não vou entrar aqui, mas a maneira mais usual tem sido em termos de uma atitude normativa: uma pessoa é irracional se ela estiver em falta com alguma obrigação epistêmica a qual ela está intelectualmente vinculada. Por exemplo, eu sou um detetive e tenho três pistas. A primeira é de que o maior suspeito estava na cena do crime no momento do roubo do cofre. A segunda é que as suas impressões digitais ESTAVAM no cofre. E a terceira pista é que o dinheiro foi encontrado NA CASA desse suspeito. Logo, concluo que ele é o culpado. Mas se eu, a partir disso, CONCLUIR que ele estava na cena por puro acaso, apenas para visitar a sua avó, e que alguém, por pura diversão e sem maiores motivos, estava por aí colocando suas impressões digitais em cofres que ele não roubou e que um terceiro, que era o verdadeiro ladrão, perdeu o dinheiro e que alguém sem nenhum motivo resolveu levar o dinheiro e jogar dentro da casa do suspeito, nesse caso, eu estaria violando o princípio da explicação mais simples. E poderíamos dizer que minha conclusão foi irracional. Então, por exemplo, quando o neo-ateu alega que a crença em Deus é irracional e mostramos o Argumento Kalam. Ele simplesmente diz que “não se sente convencido” pelo Argumento. Assim, a crença em Deus continua sendo irracional.

Ué, e desde quando ele é o juiz universal do conhecimento para poder dizer que se ele não foi convencido no seu julgamento, o outro é irracional em acreditar em algo? A validade e solidez de um argumento NÃO passa pelo convencimento pessoal do neo-ateu (aliás, talvez até seja um indício A FAVOR do argumento o fato de ele não ser aceito pelo neo-ateu, que costumam ser bizarros na parte filosófica, com seu cientificismo e Monstro do Espaguete Voador para baixo). Ele deve demonstrar um argumento para pensarmos o contrário sobre o argumento, além de demonstrar que estamos violando regras epistêmicas. E esse é um problema de discutir com neo-ateus. Podemos reduzi-los do conhecimento à ignorância em poucos segundos. Para isso, basta citar premissas com as quais ele concordaria (tipo “É racional acreditar no Big Bang’) que acabem em uma conclusão indesejada que é possível ver ele começar a duvidar até das coisas mais simples.

Ele pode dizer “Ahh, mas o Big Bang pode ser demonstrado errado amanhã”. Claro, qualquer coisa pode. O mundo externo pode ser uma matrix e a Teoria da Evolução pode ser demonstrada uma grande farsa. Poder, pode. Mas a questão é: no momento t atual, por que eu sou irracional ao acreditar em X? E a alegação de que “Não estou convencido” ou “Há outra possibilidade” não demonstram em nada irracionalidade em aceitar uma posição. Observe que eu não estou indo pelo outro lado e dizendo que QUALQUER coisa é aceitável. Por exemplo, dizer que:


(A) Deus, um ser onipotente, onisciente e moralmente perfeito, existe;

(B) O mal existe;


São logicamente incompatíveis é errado, pois existe um conjunto S de tal forma que (A) e (B) são consistentes entre si (para uma análise mais detalhada, ver meu artigo “O problema do mal e do sofrimento). Então, quem alega que é impossível estarem (A) e (B) juntos  para todo e qualquer conjunto S está alegando algo sem base. Detalhe: eu demonstrei isso por via de ARGUMENTAÇÃO, não dizendo que “não fiquei convencido que era o caso” e que “ele estava errado em acreditar que sim”. Enfim, um diálogo iria assim:


- NEO-ATEU: Se o Universo teve um início, aceito que a existência de Deus é racional.  Mas me convença que o Universo teve um início.

- TEÍSTA: [Cita tal e tal dado e argumento]. Entendido?

- NEO-ATEU: Não importa, não acredito nesses argumentos. Portanto, a crença em Deus continua sendo irracional.

- TEÍSTA: Pirou? Não tem essa de “não acredito, é irracional”, pois você NÃO demonstrou qual a irracionalidade em acreditar nelas. O fato de você não acreditar NÃO torna automaticamente algo irracional, pois você não é o juiz universal do conhecimento. Vá estudar.



[Esta é apenas uma demonstração de um modelo de refutação]

Conclusão e considerações finais:


O segredo é lembrar que ele deve dar um motivo forte para demonstrar a irracionalidade das premissas dos argumentos quando estivermos os discutindo, não só dizer que “não acredito” logo “você está errado em acreditar”. Se esse for o expediente, então teremos uma fraude intelectual configurada. E aí é só desmascará-lo, como sempre.


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2 comentários:

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    1. Não profundamente, mas pretendo conhecê-lo a fundo. Obrigado pela dica e pelo comentário!

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