O Mal Natural: Animais podem sofrer como os seres humanos?

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Predação, Sofrimento e Autoconsciência.

Sabemos que os animais fazem parte de um ecossistema mais amplo em que o drama humano não conta. Para ser viável, tal ecossistema deve ser equilibrado. Não é por acaso que cada ecossistema envolve predadores de algum tipo. Por exemplo, recentemente assisti na televisão um programa sobre como as autoridades canadenses estão reintroduzindo lobos nas florestas daquele país. Por quê? Porque na ausência desses predadores os rebanhos de rena estavam aumentando de forma descontrolada, pois não havia ninguém para abater os doentes e os idosos. Como resultado, eles estavam pastando em excesso e, portanto, morrendo de fome! Os predadores, na verdade, aumentaram a sobrevivência e a saúde dos rebanhos de rena que atacavam, fazendo deles uma parte essencial do ecossistema. Em um mundo sem predadores os insetos logo tomariam conta de tudo, uma vez que não haveria ninguém para comê-los, e todos os animais logo morreriam, porque toda a vegetação seria consumida por insetos. E uma vez que os insetos tivessem consumido toda a vegetação, eles morreriam também. Assim, qualquer ecossistema viável precisa ter predação a fim de sobreviver.


Baseado em resultado de recentes descobertas científicas,  foi possível esclarecer de maneira notável o problema do sofrimento animal. No livro Nature Red in Tooth and Claw, publicado pela Oxford University Press, Michael Murray explica que há, de fato, uma hierarquia de três níveis de sensibilidade a dor:



NÍVEL 1: REAÇÃO AVERSIVA A ESTÍMULOS NOCIVOS.



NÍVEL 2: ESTADOS MENTAIS DE DOR.



NÍVEL 3: A CONSCIÊNCIA DE SE ESTAR NA DOR.



Organismos que não são sencientes, ou seja, não têm vida mental, vivenciando, no máximo, reações no Nível 1, como insetos, vermes e outros invertebrados podem reagir a estímulos nocivos, mas não têm a capacidade neurológica para perceber a dor. Seu comportamento, obviamente, tem uma vantagem seletiva na luta pela sobrevivência e, por isso, foi construído para eles pela seleção natural. A experiência da dor não é, portanto, necessária para que um organismo apresente comportamento aversivo através de contatos que podem ser prejudiciais. Você pode ver que esse tipo de comportamento aversivo nem sequer implica no segundo estado de consciência da dor, muito menos no terceiro estado. O fato é que o comportamento de evitação não requer o estado autoconsciente da dor. As capacidades neurológicas dos organismos primitivos não são suficientes para suportar o Nível 2, que remete aos estados mentais da dor.

Já no Nível 2, entram em cena os vertebrados. Seus sistemas nervosos são suficientemente desenvolvidos para associarem certos estados cerebrais aos estados mentais de dor. Assim, quando vemos um animal como um cão, gato ou cavalo se debatendo ou gritando quando feridos, é irresistível para nós atribuí-los os estados mentais da segunda ordem de dor. Mas note que uma experiência de Nível 2  não implica um Nível 3 consciência. De fato, a evidência biológica indica que muito poucos os animais têm a consciência de que eles próprios estão sentindo dor.



O Nível 3 é uma orem de consciência superior com relação ao estado de Nível 2. Mas como é que um animal não estar ciente de seu sofrimento se eles estão latindo e gritando de dor? A neurociência nos fornece essa notável resposta. As investigações neurológicas indicam que existem dois caminhos neurais independentes associados à experiência da dor. Uma dessas vias está envolvida na produção do Nível 2(estados mentais de dor), mas há um caminho neural independente que está associado com a consciência de si mesmo em um estado de Nível 2, e esta segunda via neural é, aparentemente, um processo tardio evolutivo que só surge nos primatas superiores, incluindo o homem. Outros animais não possuem as vias neurais para ter a experiência de Nível 3(consciência da dor). Assim, mesmo que os animais como zebras e girafas, por exemplo, sintam dor quando atacado por um leão, por exemplo, eles realmente não estão conscientes disso.


Para ajudar a entender melhor esse conceito, considere um fenômeno análogo surpreendente na experiência humana conhecida como visão cega. A experiência da vista está também associada biologicamente com duas vias neurais independentes no cérebro. A primeira via transmite estímulos visuais acerca dos objetos externos que são apresentados ao espectador. A outra via está associada com uma tomada de consciência dos estados visuais. Por incrível que pareça, algumas pessoas, que sofreram algum prejuízo com a segunda via neural, mas cuja primeira via neural está funcionando normalmente, apresentam o que é chamado de visão cega. Ou seja, essas pessoas são efetivamente cegas porque não estão conscientes de que podem ver nada. Na verdade, elas "veem" no sentido de que elas, corretamente, registram estímulos visuais transmitidos pela primeira via neural. Se você jogar uma bola para uma pessoa, ela vai pegá-la porque ela a enxerga, mas ela não está ciente de que ela vê a bola, de fato! Fenomenologicamente, ela é como uma pessoa que é totalmente cega, que não recebe nenhum estímulo visual. Obviamente, como diz Michael Murray, seria uma tarefa inútil convidar uma pessoa com visão cega a passar uma tarde na galeria de arte. Pois, embora ela, de certa forma, "enxergue" as pinturas nas paredes, ela não está ciente de que ela as vê, e assim, não teria a experiência das pinturas.
 

Agora, a neurobiologia indica uma situação semelhante no que diz respeito à consciência da dor animal. Todos os animais, com exceção dos macacos grandes e do homem, não têm as vias neurais associadas com o Nível 3(consciência da dor). Sendo um desenvolvimento evolutivo muito tardio, esta via não está presente em todo o mundo animal. O que isto implica é que, ao longo de quase a totalidade da longa história de desenvolvimento evolutivo, nenhuma criatura esteve consciente de estar com dor. Ao longo de todo esse tempo, eles não tiveram e continuam não tendo consciência da dor e, portanto, não sofrem como os seres humanos.

Conclusão e considerações finais:


Este é um tremendo conforto para aqueles de nós que amam os animais, como eu, ou para os donos de animais de estimação no geral. Mesmo que seu cão ou seu gato possa estar sentindo dor, ele realmente não tem consciência de estar com dor e, portanto, não sofre como quando você sente dor. O problema é que somos frequentemente culpados de antropopatia, isto é, tratamos os animais como se fossem seres humanos. Um ótimo exemplo é o Bambi, possuidor de consciência humana e auto-percepção. E isso é simplesmente falacioso. Há na verdade um nome para isto: é "dispositivo hiperativo de detecção de agentes", a tendência de considerar os animais como se fossem agentes. Mas quando compreendemos a biologia dos animais, a verdade acalentadora vem à tona. Seja o que quer que tenha dado origem à vida, certamente, poupou os animais do sofrimento autoconsciente, que parece ser exclusivo aos seres humanos.

Fonte: Livro: Nature Red in Tooth and Claw: Theism and the problem of animal suffering, publicado pela Oxford University Press; http://www.reasonablefaith.org/animal-suffering.


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10 comentários:

  1. Cadê as postagens? Tá passando por dissonância cognitiva? Ainda falta argumentar pro cristianismo!

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    1. Boa noite. As postagens estão sendo feitas na comunidade do Facebook: https://www.facebook.com/pages/Raz%C3%A3o-em-Quest%C3%A3o/197160183790953?fref=ts

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    2. Curioso é o fato do argumento do mal ser proposto como um problema por ateus e eles mesmos não podem encontrar uma solução pro problema quando algum teísta esfrega na cara que a obrigação de provar uma contradição entre Deus e o Mal é deles.

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    3. Afinal todo problema deveria ter solução, Né?

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  2. Eu entendo o argumento moral desta maneira:
    1- Se o fundamento dos valores morais não são fixos, então são variáveis.
    2- mas o fundamento dos valores não é variável
    3- portanto, o fundamento dos valores morais é fixo.
    Mas são fixados em quê? Num caráter imutável ou num referencial absoluto que estamos bastante acostumados em chamar de Deus

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    1. Os valores morais são imutáveis (não mudam), objetivos (não importa opiniões contrárias a respeito da existência dos valores), fixos (num caráter invariável), absolutos (existem por necessidade de existência), universais (todas as culturas valorizam a justiça e a liberdade como exemplo sarisfatorio)

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    2. Por objetivo entendo também como fora/ externo a consciência, isto é, nossa consciência aceita os valores eternos por serem razoavelmente satisfatórios.

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