O Ateísmo é uma crença? (Análise)

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Os correlatos neurais das crença religiosas e não religiosas

Ateístas usualmente têm dito que o ateísmo é simplesmente a ausência de crença ao invés de uma crença na não existência de Deus, muitas vezes a fim de evitar críticas relacionadas à fé. Da mesma forma, esse estratagema consiste, implicitamente, em inverter o ônus da prova, que nada mais é que um procedimento lógico que estabelece quem deve provar determinada afirmativa. Obviamente, a afirmativa de "não crença" é falsa. Além da desconstrução empírica, é igualmente possível fazê-lo de outras formas, utilizando-se da lógica e da própria etimologia da palavra "crença".

Desconstrução empírica:

Estudos em neuroimagem têm mostrado que os pensamentos ateístas na descrença se correlacionam com a região do cérebro para crenças religiosas, ao invés da parte do cérebro associada a relacionar fatos não religiosos. Este fato sugere que o ateísmo é uma crença na não existência de Deus, ao invés de simplesmente uma falta de fé ou crença na existência de Deus. O estudo em questão, torna-se então uma evidência empírica que demonstra o estado de crença do ateísmo. Como qualquer pesquisa científica séria, o trabalho explicita a metodologia utilizada, os exames comparativos de imagiologia, as descobertas, as conclusões e os seus significados. Curiosamente, um dos autores da pesquisa é o neo-ateu proeminente Dr. Sam Harris.

Estudo demonstrando as correlações neurais das crenças religiosas e não religiosas.

Desconstrução etimológica:

A palavra crença, em sua própria etimologia, significa o estado psicológico em que um indivíduo detém uma proposição ou premissa para a verdade, ou ainda, uma opinião formada ou convicção, dito isso, podemos estabelecer o ateísmo como crença sem maiores problemas ao percebermos que o ateísmo adota uma proposição de negação da existência de Deus. Uma proposição é uma expressão sobre o mundo distinto da sentença que a expressa. Se o ateísmo fosse uma ausência de crença, logo seria, ao invés de uma proposição, uma propriedade. Segundo as definições mais frequentes, uma propriedade é uma qualidade possuída por um ser. Eu, por exemplo, tenho a propriedade/característica/qualidade de ser racional. Pela definição de "não crença", verifica-se que, se o objeto do ateísmo é uma propriedade e não algum tipo de proposição, então o ateísmo também se torna uma propriedade aplicável a pedaços de pedra e micróbios. Afinal, pedras também apresentam ausência de crença em Deus, assim como os micróbios.
Considere as seguintes posições filosóficas: realismo, conceitualismo, nominalismo, empirismo, racionalismo, idealismo, materialismo, hilomorfismo, et cetera. Assim como o teísmo e o ateísmo, essas são posições discutidas, debatidas e que podem ser verdadeiras e falsas, podem entrar em relações lógicas e possuírem consequências diretas se forem reais ou não. Por tudo isso, ninguém diria que o racionalismo é “somente” uma propriedade de alguém. Se o ateísmo e o teísmo estão no mesmo grupo, como de fato estão, então eles não são propriedades, mas têm caráter proposicional. Eles expressam algo e podemos analisar se esse algo corresponde a maneira como o mundo é ou não.

Desconstrução lógica:

Ainda que o ateu não aceite a definição de ateísmo como proposição, deverá aceitar pela lógica, pois se você não crê no sobrenatural, no que se refere à origem do universo, você, consequentemente, crê no naturalismo metafísico. É uma dicotomia de simples entendimento. O naturalismo metafísico é um sistema filosófico que suporta a ideia de que não existe nada para além da natureza, das forças e causas do tipo das que são estudadas pelas ciências naturais, ou seja, aquelas que são requeridas para compreender o nosso mundo físico. O Naturalismo, assim como o ateísmo, afasta por completo a hipótese da existência objetiva de algo sobrenatural, bem como também afasta a ideia de teleologia, ou seja, atribuir um processo a uma finalidade, vendo o que é sobrenatural explicável do ponto de vista natural. Basicamente, tem-se uma visão não dualista da realidade. Logo, podemos concluir que a "descrença" em Deus resulta, pela lógica, na crença no naturalismo. Em termos estruturais, consideremos:

1- A negação de divindades implica em naturalismo metafísico?

2 - Objetos abstratos são suportados dentro dessa conclusão?


Ao adotarmos a definição de ateísmo como sendo a adesão de uma proposição negativa com relação a divindades, e o materialismo como sendo a afirmação de que não há nada para além da natureza, restam ao ateu duas possibilidades no que concerne à origem do universo:

1- O Universo surgiu ex nihilo;

2- O Universo é eterno (cíclico ou não);


O primeiro ponto é refutado pelo princípio metafísico básico (ex nihilo nihil fit), o qual penso ser o mais seguro da filosofia, afinal, a não-existência não pode dar origem à existência. Este é praticamente um axioma. Já o segundo ponto é logicamente consistente e condizente com a definição de naturalismo: a posição filosófica que sustenta que não há nada para além da natureza. Ora, a conclusão da eternidade do universo implica na eternidade da natureza. Deste modo, podemos afirmar que a existência total se resume ao natural, o que nos evidencia uma íntima conexão entre ateísmo e naturalismo. Em conclusão, nos é evidente que a adesão de uma proposição negação com relação a divindades (ateísmo) implica em naturalismo (a afirmação de que não há nada para além da matéria). Dito isso, de uma forma ou de outra, o ateu é forçado a adotar um posicionamento proposicional com relação a uma posição filosófica. Em outras palavras, torna-se um crente.

Em tempo: Embora pareça, à primeira vista, que a referida conclusão impõe aos ateus/naturalistas a rejeição arbitrária de quaisquer entes metafísicos, é preciso ressaltar que não há problema algum em adotar ideias metafísicas como mentes, consciência, objetos matemáticos, a razão, almas ou até mesmo Deus, desde que estas entidades mantenham relação de superveniência, ao menos em algum nível, com elementos naturais.


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28 comentários:

  1. Ei mano o que acha deste link: http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/o-livre-arbitrio-nao-existe-dizem-neurocientistas

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    1. Boa noite. Este artigo é pura bobagem naturalista. Chega a beirar o ridículo. Basta ler as refutações no blog: http://razaoemquestao.blogspot.com.br/2014/10/naturalismo-metafisico-analise-e.html

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    2. Eu havia passado esse estudo de neuroimagem, que você faz menção ai no artigo, para um ateu, olha o que ele respondeu:


      O estudo não fala nada de crença ou descrença serem a mesma coisa, ele só diz que ambos afetam a mesma área do cérebro DE FORMA DIFERENTE.

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    3. A questão gira em torno da área em que as relações se manifestam, não da forma. Nesta área do cérebro, se manifestam as duas crenças. Dito isso, por que devemos tratá-las de forma diferente? Atente-se ao fato de que o estudo é apenas um complemento do artigo. Quando for utilizá-lo, alie à argumentação as outras desconstruções.

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    4. Você tem alguma coisa sobre esta dicotomia que os ateus fazem de ateísmo forte e ateísmo fraco? Elas usam essa dicotomia para justificar certas coisas, tipo da ultima vez que conversei com um ateu ele me disse o seguinte: Se deus se fizer conhecer e se apresentar ao mundo de forma clara e inconteste, nenhum ateu vai permanecer na dúvida: deus existe e eu estava enganado. Isso não é fé, pois, segundo Hb 11:1 "fé é a CERTEZA das coisas que se esperam e a CONVICÇÃO de fatos que se não veem". O ateu ligado ao ateísmo forte, pode até "afirmar" que deus não existe, porém, ele vai se render e abrir mão do que acredita diante de provas incontestáveis. A maioria dos ateus que eu conheço estão ligados à uma linha mais próxima do ateísmo agnóstico (meu caso), onde não acreditamos na existência de divindades, porém, não temos como afirmar que não exista. Nesse caso, não é fé, mas sim, uma crença, a qual pode ser derrubada frente à coisas sólidas. A fé, por sua vez, é rígida, mesmo diante de situações questionáveis. A vontade soberana de deus sempre será a resposta, pois, baseiam-se na necessidade de se ter fé.

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  2. Ateísmo forte e fraco não existe. Ateísmo é a adoção de uma proposição negativa com relação a Deus, já o Agnosticismo é simplesmente a dúvida. Isso é só um recurso de fuga que eles utilizam. E Deus não se mostra porque isso obrigaria a todos a crer na existência dele, afinal de contas, ninguém é maluco de negar o óbvio. A própria fé, como você ressaltou, não faria sentido. É uma pergunta boba que ateus fracos fazem.

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    1. Há boas razões para se acreditar em Deus, Andrei Santos?

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    2. Acredito que, mediante os argumentos a favor de Deus que a filosofia nos proporciona, sim. A crença em Deus é perfeitamente racional.

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  3. Não tenho fé suficiente para ser ateu. Para ser essencialmente ateísta você deve admitir que o subjetivismo é a única verdade objetiva (Absurdo, né)? Eu sei, sou ex ateu.

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    1. Interessante. E você está correto quanto a essa afirmação. Obrigado pelo comentário.

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  4. Sou ateu e para mim sempre ficou claro que o ateísmo é uma crença. Na verdade quase uma aposta, pois o fato é que ninguém sabe o que há por trás de nossa realidade(se é que há algo). Nossa realidade pode ser apenas uma simulação, em alguma espécie de computador avançadamente inconcebível para nós até o presente momento. Minha aposta é de que não existe um Deus. Se for quaisquer dos deuses conhecidos concebidos pelas diversas culturas ao longo dos tempos eu aposto ainda mais fichas de que não exista. Mas posso estar errado, pode inclusive existir um deus diferente de tudo o que foi concebido até hoje pelo ser humano. Contudo, para mim o que é realmente relevante é que levo a vida como se não existisse um deus pessoal e também sem a crença de que a consciência prevaleça após a morte e estou bem tranquilo com este posicionamento em relação a minha existência sem necessidade de fazer qualquer proselitismo.

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    1. Interessante a sua visão, Ricardo. É realmente difícil encontrar ateus que seguem à risca as implicações do ateísmo. Acredito que você seja o primeiro que encontro. Obrigado pelo comentário.

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  5. Transcrevendo do último parágrafo do capítulo “Discussion” do estudo do qual faz referência:

    “There is, of course, no reason to expect that any regions of the human brain are dedicated solely to belief and disbelief. Nevertheless, our work suggests that these opposing states of cognition can be discriminated by functional neuroimaging and are intimately tied to networks involved in self-representation and reward. Despite vast differences in the underlying processing responsible for religious and nonreligious modes of thought, the distinction between believing and disbelieving a proposition appears to transcend content. These results may have many areas of application—ranging from the neuropsychology of religion, to the use of “belief-detection” as a surrogate for “lie-detection,” to understanding how the practice of science itself, and truth-claims generally, emerge from the biology of the human brain.”

    Na sua deconstrução empírica comete uma falácia. Se, “Não existe razão para esperar que alguma das regiões do cérebro humano esteja dedicada à crença ou à descrença” como se conclui na transcrição, escrever que “que os pensamentos ateístas na descrença se correlacionam com a região do cérebro para crenças religiosas, ao invés da parte do cérebro associada a relacionar fatos não religiosos.” é falacioso porque até à data, que eu saiba, corrija-me se for o caso, não há estudo similar que comprove que haveria uma região específica para processar apenas crenças religiosas e outra para fatos não religiosos...
    Sendo assim, não decorre necessariamente da conclusão deste estudo que se consiga provar que o ateísmo é uma crença ou descrença tanto como se pode provar que que teísmo é uma descrença ou crença visto estarem os dois modos associados à mesma região cerebral humana do processamento dos fatos religiosos e não religiosos. A única conclusão a retirar deste estudo é que os dois modos de pensamento são processados pela mesma região do cérebro humano e que aparentemente a diferença entre acreditar e não acreditar numa proposição é independente do conteúdo. Tudo o resto é extrapolação como fez na sua deconstrução.

    Quanto à sua deconstração etimológica percbe que os conceitos associados aos termos evoluíram e evoluíram. E não tenho muito mais acrescentar mas concordo que uma crença é uma proposição positiva, daí que, por exemplo, não ser adepto da equipa do Chelsea não significa ser adepto de outra equipa que não o chelsea. Acho que é facil de perceber que não aceitar algo não corresponde necessariamente aceitar outra coisa oposta.

    Assim, quanto à sua deconstrução lógica façamos um exercício:

    1. Eu tenho crença na proposição que Deus existe.
    2. Eu não tenho crença na proposição que Deus existe.
    3. Eu tenho crença na proposição que Deus não existe.
    4. Eu não tenho crença na proposição que Deus não existe.

    Consegue perceber as diferenças? Qual é posição teísta e a posição ateísta?
    Ou é um exercício inconsequente?

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    1. Eu diria que a posição teísta equivale ao estado de crença em Deus. É uma proposição adotada que toma a forma da primeira alternativa. Já quanto ao ateísmo, podemos dizer que a terceira posição é a mais representativa. No entanto, esta última revela a consequente crença no naturalismo ontológico.

      O ponto dessa desconstrução é demonstrar que o ateísmo não é uma simples negação, mas a adoção de uma proposição de negação da existência de Deus. A segunda opção seria então uma "riscada" a uma lista enumerada. Seria como negar as características de um ser. "Uma pedra não é uma casa." Basicamente, nega-se as características de um ser. Logo, caímos novamente no quesito propriedade.

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  6. Foi apagado o comentário resposta?...

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  7. Respondendo de novo...

    O ateísmo cai no ponto 2. Não é uma negação mas uma não aceitação da proposta de existência de Deuse(s).


    Como referi, não ser da equipa do Chelsea não significa ser da equipa rival.

    O ateísmo não traz nenhuma bagagem socialista, comunista, naturalista, etc, é simplemente uma posição relativamente ao teísmo. Não se aceita a proosta de existência de um ser extraordinário à priori. Não é um simples 2+2=4...

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    1. Concordo com sua analogia dos times. No entanto, observe que quando você não aceita algo, você está inconscientemente negando. Não aceitar uma verdade é o mesmo que rejeitar, que por sua vez, é o mesmo que negar, logo, continua a ser uma proposição de negação.

      Em segundo lugar, tanto o naturalismo quanto o ateísmo podem ser entendidos como sendo a visão de mundo que diz que não há nada além da natureza. São termos praticamente sinônimos. Não há como negar a íntima relação entre os termos.

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  8. Então mostrei-lhe 4 posições que uma pessoa pode ter e está dizer que se escolher a 2 inconsciente se nega a 1. Então eu não posso escolher as duas posições 2 e 4? Neste caso estou a negar inconscientemente 1 e 3.


    Não ter o vício de fumar também é um vício?
    Não praticar o desporto de futebol também é uma prática de desporto? Ou que se pratique outro desporto?


    Não são sinónimos. Eu posso ser ateísta e não acreditar na teoria evolucionista por puro ceticismo pessoal, no comunismo, socialismo, etc. Posso ser ateísta e ser um total niilista poe exemplo.

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    1. Você pode ser um ateu sem ser um naturalista? Obviamente, não. É exatamente o que eu estou dizendo. De uma forma ou de outra, você é obrigado a adotar uma proposição, seja ela qual for.

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  9. Obviamente não há correlação. Se não pela mesma lógica todo o cientista tem que ser ateu por força da metodologia utilizada, o que na prática não é verdade, existem cientistas teistas.

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    1. Não confunda naturalismo metodológico com naturalismo metafísico, são coisas totalmente diferentes. O naturalismo metodológico prega que somente é possível conhecer e estudar o mundo natural através do método científico, o que é uma verdade. Já o naturalismo metafísico/ontológico prega que tudo o que há, enquanto realidade, é a natureza. Logo, a correlação ainda persiste, a não ser que você demonstre como alguém pode ser um ateu e não ser um naturalista.

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  10. Bem, se o quer pôr assim, não vejo problema nenhum...

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  11. Não existe um espiritualismo não teísta???

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    1. Budismo? Taoísmo?

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    2. Talvez sim, mas penso que espiritualismo nos leva, de alguma forma, a aceitar, seja implícita ou explicitamente, uma divindade. Eu não diria que é um espiritualismo teísta, mas se chamarmos de espiritualismo, talvez... É como se fosse uma consequência da existência de uma causa primária eterna, transcendente, imaterial, etc...

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    3. Bem, aí temos uma diferença de opiniões, vamos nos respeitar, tá?

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