Naturalismo Metafísico (análise e objeções)

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Análises e objeções acerca do Naturalismo Metafísico


O naturalismo é, em oposição ao sobrenatural ou espiritual, a ideia ou crença de que apenas as leis e as forças naturais operam no mundo. Basicamente, trata-se de um sistema filosófico que suporta a ideia de que não existe nada para além da natureza, das forças e causas do tipo das que são estudadas pelas ciências naturais, ou seja, aquelas que são requeridas para compreender o nosso mundo físico. O naturalismo metafísico afirma que todos os conceitos relacionados com a consciência e a mente fazem referência a entidades que podem ser reduzidas a relações de interdependência (superveniência) com forças e causas naturais. Mais especificamente, afasta a hipótese da existência objetiva de algo sobrenatural, como ocorre nas religiões humanas. Também afasta a ideia de teleologia, ou seja, atribuir um processo a uma finalidade, vendo o que é sobrenatural explicável do ponto de vista natural. O naturalismo ontológico resume-se na visão não dualista da realidade. Os adeptos do naturalismo afirmam que as leis naturais são as regras que regem a estrutura e o comportamento do universo natural e que cada etapa da evolução do universo é um produto dessas leis, porém, o que os naturalistas falham em perceber é que o universo natural, por consequência lógica, não pode dar origem a si mesmo, simplesmente porque se a causa desse universo fosse natural (material), então o que entendemos por universo natural (realidade material e física) já existiria, caindo em contradição ao falar de "causa do universo". Existir o natural (matéria) anterior ao surgimento do natural (matéria) é, obviamente, uma contradição lógica. Portanto, se há uma causa primeira, ela deve ser sobrenatural (imaterial). Pensemos acerca da alegação que o mundo natural é tudo o que existe:

Esta alegação é logicamente equivalente ao ateísmo, entretanto, não se pode provar cientificamente o último, haja vista que a ciência somente estuda o mundo natural. Como é possível a ciência comprovar que não há nada além do mundo natural, visto que esta é uma questão metafísica? O único caminho pelo qual os naturalistas poderiam realizar isto seria através da fé. Mas esta, obviamente, estaria contradizendo sua própria visão que diz que nós somente devemos acreditar no que pode ser cientificamente comprovado, isto é, a adoção do cientificismo. Esta posição parece demonstrar incoerência. Agora, consideremos a segunda alegação: nós devemos acreditar somente no que pode ser cientificamente provado. Bem, esta alegação é comprovadamente falsa. Em primeiro lugar, é muito restritiva. Há uma série de coisas que nós, racionalmente, aceitamos, mas que não podem ser provadas cientificamente, por exemplo, verdades matemáticas e lógicas, verdades metafísicas (o mundo externo é real), verdades éticas, verdades estéticas e até mesmo verdades científicas. O fato é que a própria ciência é permeada de suposições que não podem ser provadas. Por exemplo, a teoria da relatividade, um dos pilares da física contemporânea, é baseada na suposição da constância da velocidade da luz entre dois pontos A e B, mas, estritamente, isto não pode ser provado. Nós simplesmente devemos fazer essa suposição se quisermos manter a teoria. Dito isso, conclui-se que é simplesmente muito restritivo sustentar que nós somente devemos acreditar no que pode ser cientificamente provado. Mas, pior do que isso, o naturalismo é auto-refutável, pois "considerando que somente devemos acreditar no que pode ser cientificamente provado", pode esta sentença ser cientificamente provada? Obviamente não! Portanto, esta posição científica naturalista refuta a si mesmo e não pode ser verdade. Da mesma forma, filósofos como Alvin Plantinga têm obtido sucesso ao argumentarem contra essa cosmovisão, como por exemplo utilizando o argumento evolutivo contra o naturalismo:

1- Um ser requer um processo racional para avaliar a verdade ou falsidade de uma alegação (doravante, para ser convencido por um argumento).

2- Se os seres humanos são capazes de serem convencidos por um argumento, o seu processo de raciocínio precisa ter uma fonte racional.

3- Racionalidade não pode surgir de não-racionalidade. Nenhuma arranjo de materiais não-racionais criam uma coisa racional.

4- Nenhum material meramente físico ou combinação de apenas materiais físicos constituem uma fonte racional.

5- Nenhuma avaliação que é verdadeira ou falsa pode vir de uma fonte meramente física.

6- As avaliações de mentes humanas são, de fato, capazes de verdade ou falsidade.

7- O processo de raciocínio humano precisa ter uma fonte não-física e racional.

8- Naturalismo, a posição de que tudo (incluindo a razão) nasce de processos físicos, é falso.


O naturalismo não pode sequer ser racionalmente afirmado, pois se o mesmo constituísse uma verdade, a probabilidade de que nossas faculdades cognitivas fossem confiáveis seria ínfima. No referido cenário naturalista, nossas faculdades seriam moldadas por um processo de seleção natural, que não seleciona para a verdade, mas apenas para a sobrevivência. Há muitas maneiras em que um organismo pode sobreviver sem que suas crenças sejam verdadeiras. Assim, se o naturalismo fosse verdadeiro, não poderíamos ter alguma confiança de que nossas crenças são ,de fato, verdadeiras, incluindo a crença no naturalismo em si! Deste modo, o naturalismo parece ter um invalidador embutido que o torna incapaz de ser racionalmente afirmado. Em tempo, existem ainda outras inúmeras objeções ao naturalismo. Listarei abaixo oito delas, sendo a última objeção brilhante, demonstrando claramente a irracionalidade do naturalismo metafísico:

Argumento da intencionalidade

1- Se o naturalismo é verdadeiro, logo eu não posso pensar sobre nada, pois não há estado intencional.

2- Eu penso sobre o naturalismo, o que implica que:

3- Portanto, o naturalismo não é verdadeiro.




Argumento do significado

1- Se o naturalismo é verdadeiro, logo nenhuma sentença possui um significado.

2- A primeira premissa tem sentido, pois todos nós entendemos.

3- Logo, o naturalismo não é verdadeiro.




Argumento da verdade

1- Se o naturalismo é verdadeiro, não existem sentenças verdadeiras, pois nada faz sentido.

2- A primeira premissa é verdadeira.

3- Logo, o naturalismo não é verdadeiro.



Argumento da exaltação moral e culpa

1- Se o naturalismo é verdadeiro, então eu não serei mais moralmente louvável ou censurável por nenhuma de minhas ações, pois valores e deveres morais objetivos não existem.

2- Eu sou moralmente louvável ou censurável por minhas ações. Se você pensar que alguma vez fez algo verdadeiramente errado ou correto, logo, deverá concluir que:

3- O naturalismo não é verdadeiro.




Argumento da liberdade

1- Se o naturalismo é verdadeiro, eu não faço nada livremente, pois tudo é determinado.

2- Eu posso concordar ou discordar dessa premissa.

3- Logo, o naturalismo não é verdadeiro.




Argumento do propósito

1- Se o naturalismo é verdadeiro, eu não planejo fazer nada.

2- Eu planejei argumentar.

3- Logo, o naturalismo não é verdadeiro.



Argumento da permanência

1- Se o naturalismo é verdadeiro, eu não permaneço por dois momentos do tempo.

2- Eu estou escrevendo aqui por mais de 1 minuto.

3- Logo, o naturalismo não é verdadeiro.



Argumento da existência pessoal

1- Se o naturalismo é verdadeiro, eu não existo, pois não há perspectiva de primeira pessoa.

2- Eu existo.

3- Portanto, o naturalismo não é verdadeiro.




Conclusão

Os naturalistas tendem a pensar que não existe nada além da matéria. Em outras palavras, nossa mente seria apenas um subproduto natural do acaso. Mas se as leis da física, na cosmovisão ateísta, possui caráter prescritivo, isto é, guiam o mundo natural, logo, não teríamos livre-arbítrio. Dito isso, nós não teríamos o controle dos nossos próprios pensamentos, ficando desta forma, presos à determinação físico-biológica. Então, por que nós continuamos a nos questionar sobre a origem do Universo? Afinal de contas, que argumentos temos a favor do naturalismo? Bem, certamente, são poucos. Por outro lado, objeções tem-se muitas. Não parece haver boas razões para crer que o o mundo natural é tudo o que existe, e, certamente, não há boas razões para crer que nós só devemos acreditar no que pode ser cientificamente provado. Em resumo, é difícil ver qualquer boa razão para pensar que o naturalismo científico é verdadeiro. Simplesmente, o naturalismo anda distante da razão e da experiência, sendo, portanto, absurdo e logicamente insustentável.


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30 comentários:

  1. Boa noite. Parabéns pelo blog. Primeiramente, lendo seu blog e estudando o naturalismo metafísico cheguei a uma conclusão: Os teístas e ateístas em sua vida Provavelmente terão de enfrentar este dilema: Quais destas crenças possui fundamento: Teísmo ou Ateísmo? Ao meu ver, o último era somente descrença e desagrado subjetivo. Abraços.

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    1. Bom dia, obrigado pelo elogio. O ateísmo tem como implicações subjetividades extremas, desde o campo moral até o semiótico. É estritamente necessário estarmos atentos às implicações de qualquer posição adotada. Através de minha experiência, eu pude estabelecer para mim que muitos ateus não sabem sequer o que é, de fato, o ateísmo. Alguns acham que é apenas descrença, ou, ilogicamente, ausência de crença em Deus. Está errado, basta ler qualquer filosofo existencialista. Enfim, mais uma vez, obrigado pelo comentário. Abraços.

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    2. Descrença entenda como agnosticismo. Crença na inexistência de deus é o Ateísmo em resumo. Como Craig diria: os agnósticos retém a crença num Deus. PS: assumo postura agnóstica.

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  2. Entendo que o agnosticismo é apenas dúvida, ou, em outras palavras, ausência de evidências concretas que refutem ou corroborem a existência de Deus.

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    1. Assumo postura agnóstica, mas admito que o Teísmo possui argumentos melhores. O único argumento filosófico ateísta que conheço é o problema lógico do mal (Que está refutado).

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    2. http://filosofiaateista.blogspot.com.br/2013/02/paradoxo-de-epicuro-o-problema-do-mal-e.html?m=1
      Vamos analisar este argumento?

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    3. Aceita a proposta, Andrei Santos?

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    4. Bem, assumindo postura agnóstica, considero o argumento moral, no mínimo, razoável, afinal, de fato, há coisas que são CERTAMENTE erradas, independente de opinião. Exemplos? Hipocrisia (Ninguém questiona sobre isso). Pergunte para qualquer um.

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    5. Fingir possuir sentimentos os quais não tem é pior que censurável, tal atitude é condenável, afinal, quem poria confiança em pessoas que mentem tanto para si quanto pros outros?

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    6. Acho que arrogância também é uma ação errada independente do que terceiros pensam a respeito (Alguns diriam que não é uma ação que garante algo positivo).
      Enfim, nesse caso, pontos para o Teísmo.

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    7. Gostaria de um debate a respeito?

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    8. Acho que ateus nem existem (Filosoficamente), afinal, por vezes, o chamado ateísmo é somente uma dúvida a respeito de um criador.

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    9. Russell, Nietzsche, Sartre, Camus, dentre outros sempre assumiram como argumentos a dúvida, não a crença (Até pelo que sei).

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  3. Aceito sim. Enfim, os filósofos que citaste são existencialistas.

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  4. Pois bem, a definição ontológica da moralidade do argumento é baseada em imperativos morais?

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    1. Como Kant diria, sabe? Pois segundo sua filosofia há ações que são intrinsecamente boas (boas em si).

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    2. Estarei a espera de sua resposta, boa noite.

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    3. A ontologia da moralidade, segundo a filosofia cristã, está enraizada em Deus, na condição de um parâmetro moral objetivo para as nossas ações. É desta forma que sabemos o que é, de fato, certo ou errado: na natureza benevolente de Deus. Em tempo: o argumento da moralidade não trata de conhecer tais valores, mas sim de que os mesmos existem.

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    4. Sim, há ações que são intrinsecamente boas. Sugiro que leia um artigo próprio que pretendo transformar em livro algum dia: http://razaoemquestao.blogspot.com.br/2013/11/o-dilema-moral-do-ateismo.html

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    5. Desejo boa sorte para que consiga publicar seu livro. Vamos analisar o problema do mal, topa?

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    6. A moral objetiva existe obrigatoriamente a priori se for verdade? Quer diz

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    7. A moral seria teleológica (Possui finalidade por definição).

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  5. Devemos ter em mente que a moralidade objetiva assim o é porque há um parâmetro objetivo, que é Deus. Se entendermos que uma das características da natureza de Deus é a benevolência e há um padrão objetivo a ser seguido, eu diria que a moral é teleológica sim.

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  6. http://m.youtube.com/watch?v=EOtMPckcomU

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  7. A consequência lógica do Ateísmo é o extremo niilismo e moral convencional (Talvez nem seja moral).

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    1. Exatamente. Eu não diria moral, mas um conjunto de regras que permitam a sobrevivência de um determinado grupo.

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  8. http://religiaoeateismo.blogspot.com.br/2015/09/serao-os-valores-morais-relativos-ou.html?m=1

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    1. Toda e qualquer objeção possível ao argumento moral está devidamente respondida no meu artigo "O dilema moral do ateísmo".

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  9. Defendo a ideia que tudo que pensamos existir faz parte de uma organização harmoniosa, em que tudo tem relação, um todo organizado. Por exemplo: a natureza da Terra esta organizada de tal maneira que uma especie prescisa da outra involuntariamente, com milhares de seres vivos unidos como se fosse um unico organismo; o Universo cabe a natureza do planeta Terra, mais esta perfeitamente organizado em suas leis; Dentro do nada cabe o Universo, como se fosse o suporte de uma obra de arte, em que todas as coisas flui, como se fosse um organismo em que tudo cabe dentro dele. A lógica é que tudo tem uma consequência, desde um tropeço, a queda de uma pedra, ação e reação que não percebemos mais que muda o antes e o depois, alterando o que esta em volta.

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