O Dilema de Eutífron: É bom porque Deus quer ou Deus quer porque é bom?

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O Dilema de Eutífron
O dilema de Eutífron é apresentado por Platão no diálogo Eutífron, no qual Sócrates pergunta a Eutífron: "Então, a piedade é amada pelos deuses, porque é piedade, ou é piedade, porque é amada pelos deuses?" Em termos monoteístas, isto é usualmente transformado em: "A moral é comandada por Deus por ser moral ou é moral por ser comandada por Deus?" Para responder a essa questão, nada melhor do que apresentar um diálogo entre o filósofo e teólogo Dr. William Lane Craig e um de seus alunos:

"Olá, Dr. Craig. Eu tenho me perguntado ultimamente se você pode gastar algum tempo me ajudando a resolver alguns problemas. Eu estive lidando com o Dilema de Eutífron. Como você sabe, o Dilema consiste numa pergunta parecida com: “Isso é bom porque Deus aprova, ou Deus aprova por ser bom? Agora, o teísta não vai querer dizer que a “Bondade” é boa simplesmente porque Deus a aprova, já que isso faria a moralidade ser arbitrária (chame isso de “Opção A”). Também não vai querer dizer que Deus aprova a Bondade porque ela é, de fato, boa, porque isso pareceria levar à conclusão da existência de padrões de bondade fora de Deus (chame isso de “Opção B”.) Então, o teísta pode tentar quebrar o dilema entre escolher “A” e “B”, criando uma terceira opção que é: Deus é necessariamente bom, e a fonte e o padrão de Bondade são a própria natureza de Deus. Por um lado, isso evita a “Opção B”, já que Bondade, ao invés de existir fora de Deus, é parte da própria natureza Dele (e depende, na realidade, da Sua existência para existir também).

E, ainda por outro lado, também evita a “Opção A”, já que as vontades de Deus não são arbitrárias, mas, ao invés disso, operam de acordam com um padrão absoluto de moral (i.e. a natureza necessariamente boa de Deus). Mas parece que, agora, o ateu pode reformular em um novo dilema: “É a natureza de Deus boa porque aconteceu na maneira de Deus ser, ou é boa porque corresponde a algum padrão externo de Bondade?” Parece-me que a resposta para o Dilema reformulado envolve alguma coisa como a afirmação que a natureza de Deus não poderia ser nada além de boa – i.e. que a natureza de Deus não simplesmente “aconteceu” de ser de uma certa maneira. Mas eu não tenho certeza do que significa dizer isso, visto que, a menos que nós tenhamos uma concepção de Bondade externamente a Deus, isso não parece importar muito, no sentido que não parece sobrar lugar para colocar qualquer restrição na natureza de Deus. Eu suspeito que o conceito de mundos possíveis possa ajudar aqui. Mas eu não tenho certeza como ou por que. Minha sugestão para um argumento seria algo como isso:



(1) Deus é, por definição, um ser maximamente notável;



(2) Isso implica em Ele ser metafisicamente necessário e moralmente perfeito.



(3) Logo, por (2), Deus existe em todos os mundos possíveis.



(4) Mas, se valores morais são objetivos, a perfeição moral representa (ou pelo menos, tende a) um único, máximo conjunto de valores morais.



(5) Então, por (1), (3) & (4), segue que Deus tem o mesmo padrão moral em todos os mundos possíveis.



(6) Logo, a natureza de Deus é boa nem pelo modo que ele “veio” a ser, tampouco por corresponder a um padrão externo de moralidade.



—o que responde o Dilema reformulado.



Isso parece OK para mim. Mas eu não estou convencido de (4). Eu também estou preocupado que eu tenho ido longe demais com isso e tenha começado a falar besteira nesse ponto. Parece que eu estou andando em círculos na minha cabeça. Se você puder explicar de forma clara e simples para mim, eu seria extremamente grato."

James




Dr. William Lane Craig responde:



"Eu penso que sua intuição acertou o alvo, James! O argumento que você deu simplesmente precisa de alguns ajustes. Quanto o ateu diz “A natureza de Deus é boa porque “aconteceu” na maneira de Deus ser, ou é boa porque corresponde a algum padrão externo de Bondade?”, a segunda opção do Dilema não apresenta nada novo – é a mesma que a segunda opção do Dilema original, ou seja, que Deus aprova alguma coisa por ser boa, e nós já rejeitamos isso. Então a questão se nós estamos presos na primeira opção do Dilema. Bom, se o “aconteceu de ser” que o ateu se refere significa ser uma propriedade contingente de Deus, então a resposta óbvia é “Não”. A natureza moral de Deus é essencial a Ele; foi por isso que nós dissemos que era parte de Sua natureza. Dizer que uma propriedade é essencial a Deus significa dizer que não há nenhum mundo possível em que Deus exista e não tenha essa propriedade. Deus não “aconteceu de ser”, por acidente, amoroso, bondoso, justo e por aí vai. Ele é dessa forma essencialmente.


Você não precisa se preocupar com “o que significa dizer que, a menos que nós tenhamos uma concepção de Bondade externamente a Deus, isso não parece importar muito”. Pois isso é confundir ontologia moral com semântica moral. Nossa questão é com é ontologia moral, isto é, o fundamento na realidade dos valores moral. Nossa questão não é com semântica moral, isto é, o significado dos termos morais. O teísta está pronto para responder que nós temos um entendimento claro do vocabulário moral como “bom”, “mau”, “certo”, e assim vai, sem fazer referência para Deus. Dessa maneira, é instrutivo aprender que “Deus é essencialmente bom”. Muito freqüentemente os opositores do Argumental Moral lançam ataques confundindo ontologia moral tanto com semântica moral com, ainda com mais freqüência, epistemologia moral.

Se nos perguntarem por que Deus é o paradigma e o padrão da Bondade moral, então eu penso que a premissa (1) de seu argumento responde à questão. Deus é maior ser que pode ser concebido, e é maior ser concebido como o paradigma do valor moral que corresponder a ele. Sua premissa (2) também é verdadeira, que é por que Deus pode servir para o fundamento das verdades morais necessárias, i.e., verdades morais que são em qualquer mundo possível. Eu não tenho certeza do que você queria dizer com a premissa (4); mas eu penso que é dispensável. Tudo que você precisa dizer é que os valores morais (ou pelo menos a maioria deles) não são contingentes, mas existentes em todos os mundos possíveis. Então Deus será a base desses valores em todos os mundos possíveis. Isso parece, a mim, resolver o problema. Bem distante de estar falando besteira, parece-me que você nos dirigiu exatamente para a resposta correta!"


Observações

O conceito de mundos possíveis está bastante relacionado com a obra de Alvin Plantinga. Basicamente, se refere a um conjunto de coisas possíveis que poderiam ou não ser diferentes. Por exemplo: existe um mundo possível onde você está lendo esse post com um chapéu, óculos escuros e bigode falso – embora ele possa não se atualizar. Já A sentença “2 + 2 = 4″ é necessariamente verdadeira (não os signos, mas os conceitos abstratos) em qualquer lugar que seja proposta.


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38 comentários:

  1. O argumento não pressupõe que Deus seja bom? Não comete uma petição de princípio?
    P.S não sou ateísta, tampouco agnóstico (Sou deísta).

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    1. Para responder a essa questão, teremos que nos remeter ao argumento ontológico de Alvin Plantinga, onde devemos nos ater à noção de um ser maximamente grande. Uma das características de tal ser é a benevolência, logo, trabalhamos em cima disso.

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    2. http://m.youtube.com/watch?v=JpsIX7vBuOE

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    3. Deus quer algo porque Deus é bom, sua própria natureza é a fonte de toda a benevolência existente. A início, o dilema parece haver sido desfeito, porém, ao meu ver, está apenas raciocinando em círculos. O que acha a respeito?

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    4. Não vejo como argumentamos em círculos, haja vista que Deus é bom porque sua natureza assim o é. Deus, na condição de ser perfeito, só poderia existir dessa forma, sob pena de ser logicamente incoerente. Lembra quando eu disse para nos remetermos ao argumento de Plantinga? Pois bem:

      1- Deus é, por definição, um ser excelente.
      2- Um ente excelente é um ente de grandeza máxima.
      3- Um ente de grandeza máxima é definido como um ser que possui todas as qualidades que são desejáveis de se ter.
      4- A benevolência é uma qualidade desejável de se ter.
      5- Logo, a benevolência é uma característica de um ente de grandeza máxima.
      6- Logo, Deus possui a característica de ser benevolente.

      Em síntese, Deus é benevolente por ser um ser excelente. A análise lógica que fiz acima demonstra que não há qualquer argumento circular.

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    5. Não comete afirmação do consequente, não?

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    6. Responda minha objeção acima depois, tudo bem? Pelo que entendo de teologia (conhecimento limitado) o argumento metafísico reformulado se resumo em:
      (1) Não há motivo para acreditarmos que um BEM MAIOR ou SUPREMO não exista
      (2) Se é ao menos possível que este bem supremo exista, ele DEVE existir em qualquer situação hipotética
      (3) Este bem SUPREMO DEVE possuir todas as qualidades desejáveis e louváveis
      (4) Portanto, este bem supremo, caso exista, DEVE ser obrigatoriamente bom
      É isso?

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    7. Minha simplificação do argumento está equivocada?

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  2. Não há afirmação do consequente, pois na minha estrutura não há confusão entre suficiência e necessidade. O argumento todo é probalístico e as premissas se seguem necessariamente em forma de dedução. Se as premissas são perfeitamente válidas, logo, o argumento é sólido. Isso responde a sua pergunta: sim, sua simplificação está equivocada, pois ele não é feito em negação, mas em possibilidade de existência. Começa-se o argumento com uma verdade em comum que é definida por si mesma. Deus é, obviamente, o maior ser concebível possível. Ainda não vejo qualquer falácia.

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  3. A reformulação do argumento ontológico é puramente probabilístico e contigente?

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  4. A terceira premissa é necessariamente verdadeira?

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  5. A reformulação do argumento ontológico é probabilístico no início (é possível), e depois que as premissas demonstram a necessidade da existência (terceira premissa necessariamente verdadeira), tem-se a comprovação da primeira premissa. É por isso que é dito que a primeira premissa do argumento de Plantinga é a única que deve ser alvo de objeções (como acusações de contradições na natureza de Deus).

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  6. Mas por que ela é necessariamente verdadeira?

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    1. Porque Deus é, pela própria definição da palavra, um ser maximamente grande. Isso quer dizer que ele deve ter um conjunto de características que o tornem excelente. Se houver algo acima disso, esse algo será Deus. É, literalmente, a perfeição. É a partir deste conceito que trabalhamos o argumento.

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    2. http://tratadonaturalista.blogspot.com.br/2013/01/uma-simples-declaracao-sobre-o-problema.html?m=1

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    3. O que acha desta versão evidencialista do problema do mal?

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    4. É perda de tempo discutir o problema do mal quando não há fundamentos para o mesmo no naturalismo. Até hoje eu não entendo como ateus querem provar a inexistência de um ser com algo que, na cosmovisão deles, não existe.

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  7. A bondade seria altamente desejável num ser metafísico? O Teísmo neste caso prevalece contra o deísmo?

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  8. A bondade seria altamente desejável a um ser maximamente grande, portanto, creio que seja um ponto a favor do teísmo.

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  9. Certo... Filosoficamente, o deísmo possui fundamentos?

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  10. Resumidamente, a bondade seria um reflexo da vontade de Deus certo?

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    1. Seria um reflexo da própria natureza de Deus

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  11. Certo, Andrei Santos?

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  12. Quais são outros argumentos razoáveis para Deus, fora o metafísico (Que é o mais forte na sua opinião).

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    1. O argumento Moral, O argumento cosmológico Kalam e o argumento da contingência.

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    2. Para que um argumento seja válido, duas de suas premissas devem necessariamente ser
      verdadeiras.
      1- Deus é perfeitamente bom
      2- Deus é perfeitamente poderoso
      3- Deus permite males morais e naturais.
      Como refutar?
      1- Deus é todo amoroso, todo poderoso e tudo sabe
      2- Deus sempre soube que o mal e sofrimento existiriam
      3- Deus não impediu a existência destes, portanto, concluímos sua irresponsabilidade
      Como refutar?

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    3. O mal moral deriva da liberdade de escolha. Deus, por ser perfeitamente bom e poderoso, nos fez livres, e a consequência de nossas escolhas poderá implicar tanto no bem quanto no mal. Deus, no entanto, deseja que sejamos bons. Isso responde aos dois paradoxos se adicionarmos o fato de que Deus tem razões morais suficientes para permitir o mal NATURAL e o sofrimento. O maior exemplo disso nos é evidenciado pelo Cristianismo, onde, por meio do sofrimento, Cristo nos salvou.

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    4. Deus é um ser perfeito em essência, portanto, coerentemente sua natureza moral deve ser perfeita e absoluta.

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  13. O que seria de fato a benevolência divina?

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    1. Uma característica da natureza de Deus, afinal, este é um ser maximamente grande, isto é, um ser com todas as propriedades boas de se ter, tidas ao máximo.

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  14. Porque muitos ateus não sustentam sua própria cosmovisão?

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    1. Apenas duas palavras bastaria para resumir o que é o ateísmo: subjetividade extrema.

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