A Importância da Programação Infantil na Contemporaneidade: uma crítica analítica

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A Programação Infantil e a Formação do Caráter

Em tempos onde o processo de "adultização" torna-se cada vez mais precoce, faz-se necessário compreender o mecanismo da formação do caráter de um indivíduo bem como a influência externa para com o mesmo. Sabe-se que um dos métodos infantis de aprendizagem se dá via absorção, isto é, a criança absorve e tende a imitar tudo aquilo que está a sua volta. A aprendizagem, por si só, é um processo complexo, diga-se de passagem, pois envolve diversas competências e habilidades, como o próprio conhecimento, a experiência, a formação, o raciocínio e a observação. A educação infantil, como um todo, não envolve somente o exercício das capacidades cognitivas e motoras, mas também um esboço de uma formação moral. Em outras palavras, neste momento, aponta-se a direção que se deve seguir, introduzindo-se no subconsciente de cada mini-ser-humano uma bússola moral.

Na pré-escola, tem-se o exercício das competências já citadas anteriormente, como a capacidade cognitiva e motora, bem como os primeiros esboços de uma interação social. Já no ambiente familiar, na presença dos pais, tem-se uma interação muito mais intensa e um contato muito maior com "o outro". Além da capacidade de absorção de uma criança, um aspecto imprescindível na formação do caráter é a assimilação. Existem dois tipos de aprendizagem por assimilação: Hiperassimilação e Hipoassimilação. O primeiro refere-se ao movimento do processo de adaptação pelo qual os elementos do meio são alterados para serem incorporados pelo sujeito. Em uma aprendizagem sintomatizada pode ocorrer uma exacerbação desse movimento, de modo que o aprendiz não se resigne ao aprender. Em suma, há o predomínio dos aspectos subjetivos sobre os objetivos. O segundo refere-se a uma assimilação pobre, o que resulta na pobreza no contato com o objeto, de modo a não transformá-lo ou assimilá-lo como um todo todo, mas apenas acomodá-lo.

A aprendizagem normal pressupõe que os movimentos de assimilação e acomodação estejam em equilíbrio. O que caracteriza a sintomatização no aprender é predomínio de um movimento sobre o outro. Quando há o predomínio da assimilação, as dificuldades de aprendizagem são da ordem da não resignação, o que leva o sujeito a interpretar os objetos de modo subjetivo, não internalizando as características próprias do objeto. Quando a acomodação predomina, o sujeito não empresta sentido subjetivo aos objetos, antes, resigna-se sem criticidade. Apesar das inúmeras formas de aprendizagem, é evidente que todo o seu processo está diretamente relacionado à interação entre o indivíduo e seu meio e como esse atua sobre ele.

Em meio a tantas categorias de estilos igualmente importantes de aprendizagem, a que nos interessa neste tópico de hoje é a categoria visual. A associação visual reside na observação de que o indivíduo percebe algo em seu meio pelas sensações. O seu resultado é a consciência de algo no mundo exterior que pode ser definida como ideia. Haja vista que a associação leva às ideias, e para tal, é necessário o contato com o objeto, logo, deve haver similaridade, frequência de observação e, talvez o mais importante de todos os aspectos, a atração da atenção aos objetos em questão. Vem daí, portanto, a importância incondicional dos desenhos animados na formação do Caráter de uma criança. As animações visuais infantis, através da familiarização, imaginação e facilidade de absorção, estimulam  e tornam inteligíveis, de forma brilhante, o senso de valor e dever moral no subconsciente infantil, e a resposta, salvo anomalias patológicas, é um emaranhado de emoções e sensações que os tornam o que são em essência: humanos.

Aprendizados acompanhados de fortes estímulos emocionais tendem a permanecer indefinidamente no subconsciente de cada indivíduo, especialmente quando ocorridos durante a infância. O maior exemplo desta premissa são os traumas infantis que, muitas vezes, acabam se tornando fobias no futuro. Dito isso, em diálogo com o conteúdo visual infantil, uma vez que as animações tenham como ferramentas valores universais, como bondade, justiça, honestidade ou caridade, estes, dificilmente serão retirados do subconsciente de um indivíduo, até mesmo durante a idade adulta. Em suma, o conjunto dos primeiros valores absorvidos pelos mesmos, pode ser entendido como um "firmware", isto é, um conjunto de instruções programadas diretamente no "hardware" de cada ser humano.

Na ausência dos pais ou até mesmo na falsa presença dos mesmos, as animações infantis funcionam também como um plano de fuga, em outras palavras, um universo alternativo onde a criança emerge em razão das aversões do ambiente familiar. Afinal, como qualquer outra aversão, tem-se como consequência a adoção de mecanismos de defesa ou fuga. Com o passar do tempo, a psicanálise constatou que a a experiência emocional infantil é a base da maturidade emocional e da saúde mental do adulto. A partir dessa constatação, mais uma vez, é possível estabelecer a importância dessa ferramenta infanto-visual, porém, desta vez na condição de veículo de fuga.

O que muitos consideram como "inocência" é, na realidade, a ausência de contato com valores e deveres morais distorcidos. Da mesma forma que a escuridão é a simples ausência de luz, o mal é a simples ausência do bem. Em termos análogos, o imoral é antagônico à moral. A conclusão lógica que se segue é que, a partir do primeiro contato com valores distorcidos, consequentemente, perde-se a inocência. A programação infantil tem, portanto, o importante papel de ajudar a preservar tais valores, isto é, a própria inocência.

Após as referidas análises, podemos concluir, asseguradamente, que as programações infantis são uma poderosa ferramenta no desenvolvimento de um indivíduo, e, infelizmente, cada vez menos utilizadas na atualidade, ou ainda, utilizadas de forma ineficaz. O fato é que o acesso às programações infantis vem diminuindo consideravelmente na atualidade. Este fenômeno se deve em parte à mudança de mentalidade da mídia brasileira, priorizando ainda mais o público adulto, bem como o advento da internet, que é, por sua vez, outro aparato visual bastante atrativo. As animações infantis que ainda restam, podem ser acessadas apenas em canais "fechados", muitas vezes inacessíveis às classes mais desfavorecidas, que são, justamente, aqueles que mais precisam dessa ferramenta moral. Um recurso tão precioso como esse não deveria subestimado. Talvez seja a hora de repensarmos toda a dinâmica da educação infantil, ou ainda, devemos nos perguntar: Que tipo de seres humanos queremos formar?

Referências:

[1] Freddy Rojas Velásquez (Junio 2001). Enfoques sobre el aprendizaje humano (PDF). Visitado em 25 de junio de 2009 de 2009. "Definición de aprendizaje"
[2] Hilgard, ErnestTeorias da Aprendizagem. 5. ed. São Paulo: E.P.U, 1973. p. 3.
[3] Gazzaniga, Michael; Todd Heatherton. Ciência Psicológica: mente, cérebro e comportamento. 1. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 183.
[4] Pozo, JuanAprendizes e Mestres: a nova cultura da aprendizagem. 1. ed. Porto Alegre: Artmed, 2002. p. 60.
[5] Boyd, Denise; Helen Bee. A criança em Crescimento.


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