A ciência é onipotente? (Análise crítica)

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A ciência é onipotente?
Uma exposição crítica ao pensamento cientificista

Por cientificismo, entende-se que o único meio de se alcançar a verdade (lê-se o verdadeiro conhecimento) é através da ciência. Basicamente, trata-se da adoção de uma postura extremamente positivista que afirma que a melhor maneira de investigar como as coisas realmente são, sejam elas naturais, sociais, artificiais ou conceituais, é pela adoção do método científico. Esta tendência intelectual, portanto, preconiza a adoção do método científico, tal como é aplicado às ciências naturais, a todas as áreas do saber e da cultura (filosofia, ciências humanas, artes, etc.) Não obstante, a referida posição, ao longo da história, vem sendo fortemente criticada por intelectuais de vários campos do conhecimento. Aliado aos críticos do cientificismo, estabeleço que o intuito desse texto é, portanto, somar às críticas e demonstrar, do ponto de vista lógico, que a ciência não é, de fato, onipotente. Em suma, pretende-se, aqui, evidenciar que o cientificismo é falso ou, no mínimo, completamente trivial.

Ciência e História

Sabe-se que a aplicabilidade científica baseia-se em algumas regras. Entre elas, está a repetição de eventos com controle de variáveis em um ambiente controlado. Devido a esse fator, há certos tipos de eventos os quais a ciência não conseguirá fornecer explicações, haja vista que são muito diversos para serem enquadrados na metodologia científica. Entre os referidos fenômenos, estão aqueles que já estão inacessíveis ou que diferem bastante do tipo de explicação científica, tal como eventos do passado muito distante. Entre os fenômenos muito diferentes, estão os eventos irregulares (únicos ou muito raros) ou eventos de escopo muito grande. Os fenômenos de um passado muito distante já estão perdidos, em grande parte.

Pensemos, a fins argumentativos, no que tomamos no café da manhã dez anos atrás. Não existem, provavelmente, mais resquícios materiais dessa época. Não há mais como gerar um conhecimento, pela metodologia da ciência acerca do que ocorreu nesse café antigo. Talvez, sequer, não seja preciso nem ir tão longe. É possível que o mesmo ponto se aplique ao café de uma ou duas semanas atrás. Há a possibilidade que você ainda saiba o que, de fato, ingeriu naquela manhã, mesmo que não haja mais uma forma de fazer esse experimento. Logo, acerca dos fatos perdidos no passado e de sua inacessibilidade do ponto de visto da ciência, mesmo que o exemplo não tenha sido ilustrado perfeitamente, nos serve para mostrar que essa é, de fato, uma verdade auto-evidente.

Como a metodologia da ciência se baseia na repetição e no controle de variáveis, os eventos devem ser, portanto, do tipo que possam ser reproduzidos em ambientes específicos. Se acontecerem determinados eventos, sejam eles naturais ou não, de modo que não seja possível a sua reprodução em ambiente controlado, então não seria possível dar uma explicação científica discernindo os fatores que causaram esse evento. Entre os eventos de escopo muito grande, estão os eventos como a existência do ser. A metodologia científica pode somente explicar os eventos naturais em termos de um estado existente anterior às condições do novo estado em conjunto com uma lei da natureza. Ela também pode explicar porque certas leis da natureza funcionam em termos de outras leis mais gerais e mais simples , tal como as leis de Newton fizeram com outras leis. Em contrapartida, a ciência jamais poderia explicar porque existem exatamente essas leis fundamentais da natureza ou porque existe algo ao invés do nada.

Ciência e Filosofia

Sabe-se que a ciência trabalha sob vários pressupostos filosóficos, onde muitas deles são discutidos dentro da filosofia. A título de exemplo, para a metodologia da ciência, discutem-se alguns critérios de demarcação da pesquisa. E essa discussão é feita dentro da própria filosofia. Um dos mais famosos critérios, tão caro aos positivistas, é o critério da falseabilidade. Como falsear a falseabilidade cientificamente? Obviamente que não seria possível, pois ela é definida em uma etapa anterior ao experimento científico. Afirmar tal sentença seria, absolutamente, uma contradição em termos. Outra noção da qual a ciência depende é uma definição cuidadosa do que pode ser considerado como “causa” de outro evento a fim de evitar problemas de falsa correlação, e essa é uma discussão filosófica que nos remonta aos tempos de Aristóteles. Para obtermos uma ciência "saudável", portanto, é estritamente necessário que ela esteja refinada e moldada filosoficamente antes das experiências. Não obstante, devemos considerar igualmente as noções de lógica e de matemática, que, por sua vez, estão pressupostas na ciência, cujos parâmetros ali observados também não são discutidos cientificamente.

Um cientificista poderia rebater essa questão e dizer que a matemática, a lógica ou a discussão sobre o conceito de causalidade são uma "forma de ciência” ou que “a ciência confirma essas verdades a cada um dos seus experimentos”. Todavia, dizer que a ciência confirma essas verdades é um erro crasso, pois o método que ele usa para confirmar sua alegação é proveniente justamente dessas mesmas verdades. Temos aqui, então, um exemplo de um raciocínio circular. Logo, o argumento é logicamente inválido. Ainda assim, se o cientificista disser que essas coisas são “uma forma de ciência”, ele estará, então, tornando o cientificismo algo completamente trivial, pois, inexoravelmente, assumem-se áreas que, segundo eles, deveriam ser incompatíveis com o naturalismo metodológico. Por fim, cientificista, confrontado com os estudos de lógica, deverá negar que:

(1)
É possível ter conhecimento da lógica;

(2)
Esse conhecimento não é gerado pela metodologia da ciência;

Observem que (1) é uma verdade auto-evidente e que não se pode negá-la sem cair na incoerência. Agora, observem que (2) também parece ser uma verdade sólida e razoável. Será que quando filósofos e matemáticos estudavam os símbolos e criavam novas formas de linguagem para expressar a lógica ele estava fazendo um “experimento científico”? Na Idade Média, os debates públicos sobre lógica também eram “experimentos científicos”? Logo, ao redefinirmos o sentido do que, de fato, significa cientificismo, ou seja, fora do naturalismo metodológico, então as objeções caem por terra. Parece, portanto, muito mais racional aceitar que a metodologia científica não é exaustiva para o conhecimento humano.

A ciência é onipotente?

Em função da proposta cientificista, muitos de seus seguidores ainda insistem em dizer que todas as decisões devem ser tomadas através do método científico, incluindo até mesmo decisões acerca da existência de Deus. Logo, em estrutura, temos que:

(A) A única forma correta de tomar uma decisão, de forma coerente, é com o método científico;

(B) Uma definição de posição quanto à existência de Deus é uma tomada de decisão;

(C) Se a pessoa não embasar sua decisão sobre Deus em provas científicas, então ele está necessariamente errada;

Como vimos anteriormente, existem vários planos de conhecimento. O plano do método científico se refere a conhecimentos obtidos através de experimento testáveis, reproduzíveis e controláveis sobre relações causais entre entes empíricos. Já o plano filosófico concentra-se um degrau acima, utilizando-se da lógica e da razão. Deus, por definição, não é um ser físico/empírico nem “reproduzível” em laboratório. Portanto, a discussão sobre Deus está um plano acima do método científico. Deve ser feita pela lógica e pela filosofia, assim como são feita as discussões sobre existência de outras mentes, juízos morais, valores éticos e estéticos, bem como juízos de conhecimento. A própria frase “todas as tomadas de decisão devem ser feitas através do método científico” é resultado de uma tomada de decisão baseada em conhecimento. Adotando o cientificismo como postura intelectual, como testar, então, essa ideia de acordo com os padrões científicos? Pois é, impossível. Em síntese, estamos diante de mais uma contradição lógica. Juízos sobre conhecimento são feitos estritamente pela filosofia. Quem utilizar métodos que servem para um fim “x”, em uma situação “y”, acabará por cometer o que conhecemos como falácia metodológica.

Há, conclusivamente, uma série de coisas que a ciência não pode provar, mas que somos perfeitamente racionais em aceitá-las, tal como o filósofo Dr. William Lane Craig demonstrou em seu memorável debate com o Dr. Peter Atkins. Permitam-me listar, ao menos, cinco delas:

(1) Verdades lógicas e matemáticas não podem ser provadas pelo método científico, haja vista que a ciência pressupõe a lógica e a matemática. Logo, tentar prová-la utilizando a ciência seria argumentar em círculos;

(2) Verdades metafísicas acerca da existência de outras mentes além da nossa ou sobre a realidade do mundo externo também não podem ser cientificamente comprovadas;

(3) Verdades éticas, bem como declarações de valor, também não estão no escopo do método científico, pois a ciência não pode nos dizer se o que os nazistas fizeram em Auschwitz foi bom ou ruim, em contraste com os cientistas das democracias ocidentais.

(4) Julgamentos estéticos também não podem ser avaliados pelo método científico, pois o belo, assim como o bom, não podem ser cientificamente provados.

(5) A própria ciência não pode provar a si mesma, pois ela é permeada de suposições que não podem ser provadas. A título de exemplo, na teoria especial da relatividade, supõe-se que a velocidade da luz é constante entre quaisquer pontos A e B. No entanto, estritamente falando, isso não pode ser provado, mas apenas temos que aceitar a referida suposição a fim de sustentar a teoria.

Portanto, nos é evidente que somos todos racionais ao aceitar tais verdades, mesmo não sendo submetidas ao escopo do método científico. Conforme W. L. Craig e J. P. Moreland em Philosophical Foundations for a Christian Worldview (p. 121): "A ciência tem certas pressuposições filosóficas (e.g., de que há verdade, de que as pessoas realmente têm conhecimento e crenças justificadas a respeito do mundo externo). Assim, a autoridade epistêmica da ciência repousa sobre a autoridade da filosofia (incluindo a epistemologia), não o inverso."

Conclusão e considerações finais

Em resumo, nos fica claro que a metodologia da ciência é limitada na geração der respostas em uma série de questões. Além disso, outras questões fora dela também podem ser conhecidas e úteis – sendo o exemplo mais óbvio e direto que, para estabelecer inclusive essa própria metodologia, precisamos do conhecimento filosófico. Então, há, de fato, uma fronteira para o conhecimento científico. Deste modo, conclusivamente, podemos dizer que a ciência não é onipotente.

Referências:

[1] SWINBURNE, Richard; The Evolution of The Soul, Oxford University Press, USA;

[2] SWINBURNE, Richard; The Existence of God, Oxford University Press, USA;

[3] William Lane Craig VS Peter Atkins (Debate) - Does God exist? University of Manchester, October 2011, USA;


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15 comentários:

  1. Mas é claro! A ciência não pode sequer explicar porque a lógica existe! PS: Pedro Sá.

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    1. Tampouco a existência das próprias crenças incluindo a da própria ciência!

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    2. Exatamente, Pedro! Já falamos bastante sobre essa peculiaridade.

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    3. Não se preocupe, logo, logo vou criar um e mail para poder me identificar, abraços, cara!

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    4. Abraços. Seja sempre bem-vindo!

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  2. A ciência pode explicar porque a realidade se comporta de uma maneira e não de outra?

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    1. Haja vista a definição de Deus, os argumentos para sua existência são um tanto convincentes e razoáveis além de serem filosóficos.

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    2. https://m.youtube.com/watch?v=m0_zpPKrR7Q gostaria que você fizesse uma análise deste debate

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    3. Como é um vídeo bastante longo, não garanto que a análise saia rápido. Peço, portanto, um pouquinho de paciência.

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    4. Sinceramente, pela primeira vez, acho que Craig perdeu.

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    5. Entendo... Bem, darei minha opinião quando eu assistir ao debate.

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    6. Não é por causa da falha dos argumentos, mas sim porque aparentemente ele acabou perdendo a compostura

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    7. Entendo. Bem, essas coisas acontecem...

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