Zeitgeist: a semelhança entre Jesus e as divindades pagãs (Análise)

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Zeitgeist, cuja tradução, do alemão para o português, significa espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos, nos remonta a um documentário produzido no ano de 2007 abordando supostas semelhanças entre a história de Jesus e a história de seres mitológicos de outras regiões do planeta. Ele foi lançado pelo Google Videos e acabou se tornando uma febre. Em decorrência disso, o referido documentário alcançou grande sucesso entre neo-ateus na internet. No entanto, será que fez o mesmo sucesso entre historiadores profissionais? Aparentemente, não. Zeitgeist pode ser considerado como um filme pseudo-histórico e fraudulento, que se utiliza de fontes absolutamente risíveis, como egiptólogos amadores e poetas ingleses. Em entrevista disponibilizada no vídeo a seguir, o Dr. Chris Forbes, professor sênior no Departamento de História Antiga da Universidade de Macquarie (Sidney, Austrália) comenta o documentário:


Se o questionador tentar argumentar, com base no documentário Zeitgeist, e utilizá-lo como prova da invalidade do Cristianismo/inexistência de Deus ou da historicidade de Jesus, pergunte pelas fontes primárias que fundamentam as suas alegações. Por exemplo: uma fonte primária sobre o Cristianismo é a Bíblia. Uma fonte indireta seria a análise de algum autor ou historiador sobre a vida de Jesus ou ainda alguma notícia em um site da internet. A partir daí, seja criterioso, e somente espere pra ver se ele vai conseguir alguma coisa. Não obstante, paralelamente a imensa credulidade no documentário Zeitgeist, o que se prova é que os pseudo-céticos só aplicam o ceticismo às alegações que lhes convêm. Isso é justamente o que conhecemos como seleção de interesses, afinal, para saciar o desejo intrínseco de "bater" no Cristianismo, qualquer coisa é arma...

                                                          O Calendário Gregoriano

Outro fator que torna impossível o plágio envolvendo o Cristianismo é exatamente a data de 25 de dezembro, tão questionada pelos céticos. Nos tempos de Jesus e nos milênios anteriores, não existia um sistema de calendário fixo para vários países ou povos, ou seja, cada um tinha o seu. Logo, os calendários eram sempre confusos e extremamente diferentes um do outro. Muitas vezes, em função da sucessão de um novo rei, por ordem deste, todo o calendário era modificado a seu gosto e liberdade. Em contrapartida, atualmente, o calendário que adotamos é uma forma recente de contar o tempo. Foi o Papa Gregório XIII que decretou o seu uso através da Bula Papal "Inter Gravissimus" assinada em 24 de fevereiro de 1582. A proposta foi formulada por Aloysius Lilius, um físico napolitano, e aprovada no Concílio de Trento (1545/1563). Nesta ocasião foi corrigido um erro na contagem do tempo, desaparecendo 11 dias do calendário. A referida decisão fez com que o dia 4 de outubro de 1582 sucedesse imediatamente o dia 15 de outubro do mesmo ano. Os últimos a adotarem este calendário que usamos foram os russos em 1918. Este é o conhecido calendário gregoriano.

Reparem que as alegações dos céticos sobre o plágio está totalmente baseada no calendário gregoriano, mesmo antes do referido modelo vir a existir. Nos resta, então, questioná-los: como podem alegar um plágio utilizando como base um calendário que não existia na época? Quer dizer então que no Egito Antigo, por volta do ano 3000 a.C., existia o mês de dezembro? Tenhamos em mente que os calendários dos povos antigos eram baseados sempre nas estações do ano e fases da lua. Porém hoje, sabemos que as fases da lua não seguem uma cronologia correta, fazendo com que esse erro seja corrigido a cada 4 anos, ou seja, todo ano, sobram 6 horas. Imaginemos, por alguns instantes, a confusão que isso causava nos antigos calendários. Agora, alie este fator às decisões pessoais dos reis e imperadores (Julío Cezar e Cesar Augusto, criadores do mês de julho e agosto, por exemplo). Resultado? Bem, uma baita confusão e uma teoria cética, sem pé nem cabeça, claramente refutada. Em suma, mesmo se Jesus não tiver nascido no dia 25 de Dezembro (o que eu discordo, e demonstrarei a seguir o porquê), a teoria de cunho conspiratório não se sustenta.

                                                              O dia 25 de Dezembro

O método pelo qual podemos datar o aniversário de Jesus é bastante simples e confiável: primeiramente, devemos utilizar as escrituras para determinar o aniversário de João Batista. Por fim, utilizando como parâmetro o aniversário de João Batista, podemos encontrar o aniversário de Jesus. Lembrando que todo esse processo deve ser feito com base no calendário judaico. Deste modo, irremediavelmente, seremos levados ao período que conhecemos hoje como sendo dezembro. Ao seguirmos os fatos relatados nos documentos históricos, relacioná-los como o calendário judaico e com outros eventos narrados, de modo que verificamos se batem ou não, o nascimento de Cristo seria, de fato, por volta ou em 25 de dezembro.

Então, por que precisamente a data 25 de dezembro? Bem, há quem diga que a referida data foi escolhida para substituir o festival pagão romano de Saturnália. Todavia, isso está errado. Na Saturnália comemorava-se o solstício de inverno, porém, o solstício de inverno, segundo os cálculos cruzados do calendário da época com o vigente, cai em 22 de dezembro. É verdade que as celebrações da Saturnalia começavam mais cedo por volta de 17 de dezembro e era prorrogado até 23 de dezembro, no entanto, mesmo assim, as datas ainda não coincidem.

Por outro lado, há um elemento simbólico em questão que fora aliado à precisão da datação histórica: a Igreja Católica teria escolhido esta data, em especial, por conta da festa pagã do "Sol Invictus", o "Sol Vitorioso". No dia em questão, segundo os conhecimentos astronômicos da época, os romanos acreditavam que acontecia o solstício de inverno (hoje, no entanto, sabemos que é no dia 21), que dava fim ao dia de menor luz, indicando o início do período em que o sol começava a estar mais presente. Esta seria a representação da ascensão da luz sobre a escuridão.

Ainda assim, há quem diga que o inverno rigoroso impossibilitaria o nascimento naquela data e naquele local. No entanto, quem levanta essa objeção compara erroneamente o inverno da Palestina com o inverno europeu. Podemos confirmar, através do accuweather, um dos mais respeitados sites de meteorologia do mundo, que a temperatura média de Jerusalém no mês de Dezembro varia entre 10 e 20 ºc em todo o mês de Dezembro. Claro que estamos falando de anos de diferença, todavia, por projeção e cientes de que não houve uma drástica mudança climática em Jerusalém neste tempo, podemos afirmar com certa segurança que esta era a temperatura média naquele período. Em locais com temperatura menor, várias atividades são feitas normalmente, ou seja, absolutamente nada impediria os pastores de estarem com seus rebanhos no campo ou o nascimento de Jesus, mesmo levando em conta a temperatura mínima e a possibilidade de neve.

Considerações finais

Este é, ao meu ver, um dos piores argumentos a ser utilizado, seja por céticos ou por ateus, pois o mesmo é baseado em um compilado de ignorâncias históricas que beiram à loucura. Este é um mal que atinge não somente a quem utiliza tal documentário, mas também a todos os outros, ao propagar e perpetuar mentiras camufladas de verdades. Em todo caso, mais vale uma pesquisa honesta e referenciada por grandes e confiáveis nomes da história, bem como uma revisão por pares, do que um apelo desesperado a fim de saciar vontades pessoais. Quem sai perdendo nessa história toda, lamentavelmente, é a própria história.

Referências:

[1] http://www.cacp.org.br/zeitgeist-o-espirito-de-um-sofisma/;

[2] Cristianismo e Mitraísmo. Uma apologia, por Dr. Norman Geisler - Enciclopédia de Apologética, Norman Geisler, Ed. Vida;

[3] Datação do nascimento de Jesus - Wikipedia.org;

[4] Zeitgeist, The Movie. A maior história de Todas - documentário;

[5] Dr. Chris Forbes, professor sênior no Departamento de História Antiga da Universidade de Macquarie (Sidney, Austrália) - [Comentários sobre Zeitgeist];

[6] Apologistas Católicos. Jesus não nasceu em 25 de Dezembro porque fazia frio em Belém? Disponível em: <http://apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/natal/837-jesus-nao-nasceu-em-25-de-dezembro-porque-fazia-frio-em-belem-a-reposta-catolica>. Desde 07/12/2015,


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13 comentários:

  1. Deus esta fora desta realidade, que foge da razão e de qualquer tentativa materialista de prova sua existência.Ele não age diretamente na condução dos fatos, mais vai deixando os acontecimentos surgirem e as idéias brotarem na consciência humana, induzindo com o tempo a sua crença. É uma história longa sobre crença, começando pela ignorância do homem primitivo para tentar explicar o mundo colocando astros como deuses, fenômenos da natureza e seres vivos como dividades com semelhanças humanas e até sentimentos. Mais durante a evolução da nossa consciência e ciência, fomos desmistificando cada um, e chegando na conclusão de um Deus único, que esta acima de tudo, maior do que o Universo.
    Sobre Jesus, não conseguimos saber com exatidão sobre a sua vida, porque os acontecimentos no passados, passados oralmente, já que poucos sabiam escrever e depois acrescentados das vantagens que alguns acrescentaram para prende a atenção dos futuros leitores. Sua história foi moldada com o tempo, suas qualidades e atos engradecidos para a crença em Deus. Jesus segundo o meu entendimento é um avatar, manifestação corporal do ser supremo, com consciência humana, em um corpo imperfeito e sujeito as mesmas leis da vida, e limitações humanas. Ele sabia do seu destino na cruz, para que o seu sofrimento e morte fora do comum em publico, o engrandecer-se e trouxesse muitas pessoas para a crença em Deus.

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  2. E ainda tem muita gente q usa esse documentário contra os cristãos...

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    1. Como eu disse... Para saciar o desejo oculto de "bater" no Cristianismo, qualquer coisa é arma, mesmo que seja um documentário cospiracionista ridículo.

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  3. Qualquer pessoa bem informada sabe que Jesus existiu! Não precisa nem ser crente, tampouco ateu para saber disso! Basta estudar!

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    1. Exatamente. Existem mais documentos históricos mencionando Jesus do que qualquer outro ser humano da história antiga.

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    2. Bem, disso aí sinceramente não sabia!

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    3. Pois é, inclusive ele é mencionado em fontes não-cristãs.

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    4. Ele é mais mencionado em fontes seculares?

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    5. Não acredito que seja mais mencionado, mas, que há várias menções, há.

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  4. Cara me responde uma coisa, muitos ateus comparam a crença em Deus a crer em fadas, duendes, etc... É uma falacia?

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    1. O problema é você crê somente pela fé e no foi escrito antigamente quando o conhecimento humano não tinha base das ciências, ficando na base do imaginário, mentes férteis, fofocas e mentiras que iam se tornando lendas, parábolas para tentar explicar a natureza. Esta chegando o tempo que as pessoas para acreditar em Deus, vão ter que ter conhecimento para das ciências, procurar no limite do conhecimento, onde não houver explicação. Deus não faz mágica, ele influencia a natureza minunciosamente que parece ser o acaso ou sorte.

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    2. Sim, Gabriel, é uma falácia de falsa analogia que costuma vir acompanhada da falácia de inversão de planos, falácia metodológica e espantalhos. Geralmente, neo-ateus comparam Deus à Fada do Dente, Duendes, ou Papai Noel. O problema com essa comparação, no entanto, é que os últimos três itens, além de satisfazerem perfeitamente nossa situação epistêmica, são descritos como seres físicos, diferentemente de Deus, que é descrito como sendo imaterial, atemporal, eterno, etc. Graças a isso, nós podemos refutá-los o tempo todo. Se Papai Noel existisse, nós esperaríamos vê-lo, haja vista que, assim como a fada do dente ou duendes, são alcançados pelo método científico.

      No entanto, não vemos nada que corrobore a “bibliografia” sobre eles (isto é, a forma como são originalmente descritos): armazéns no Polo Norte, um grande trenó e por aí vai. Similarmente, se houvesse biologicamente pequenos seres humanos nesse planeta nós esperaríamos vê-los, mas também não vemos suas evidências: aldeias em miniatura, resíduos de seus produtos, e ossos de seus mortos, tais como as evidências similares para os que temos para ratos, hamsters e outras criaturas pequenas. O ponto principal é que Deus não é um ser físico como os outros seres, portanto, a comparação já começa equivocada já de início. Deus é um ser metafísico (além da física, na tradução literal), logo, deve ser estudado pela filosofia, diferentemente dos outros seres (descritos como físicos), que devem ser estudados pelo método científico.

      Como um último suspiro, eles poderiam dizer que não se prova a inexistência, mas somente a existência. Em suma, se tivermos conhecimento acerca do objeto pesquisado; suas características; sua aplicação no plano de investigação correto; o estabelecimento do tipo de evidência a ser aceita e a seleção do recorte da realidade a ser analisado, bem como as ferramentas e a possibilidade ou não de cobrirmos toda produção de evidências que encontraríamos nesse recorte, seria obviamente possível provar a inexistência de algo, pois saberíamos que tipo de evidência seria produzida no caso de existência.

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    3. Eu posso provar que seres mágicos vindos da literatura não existem!

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