Evolucionismo, Darwinismo e Naturalismo em perspectiva: Diálogos com o teísmo [Parte 1]

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 Definindo conceitos:

Falar em teoria da evolução, teísmo, ateísmo e religiões em geral sempre é motivo de grandes atribulações, porém, a maioria delas causadas por mal-entendidos acerca dos conceitos em questão. Primeiramente, devemos ter em mente que evolucionismo e darwinismo não possuem o mesmo significado. Evolução, do latim evolvere, significa simplesmente uma série de mudanças ou transformações, dada a sua ampla gama de interpretações referentes a própria etimologia da palavra, sendo, portanto, mais abrangente. Além disso, ela foi teorizada muito antes de Darwin, por filósofos como Agostinho de Hipona, por exemplo. Já a Evolução Biológica refere-se à descendência modificada, isto é, a ideia de que os seres vivos vão se alterando ao longo de suas gerações. Há vários níveis, desde aquela que apenas torna uma geração mais resistente à uma doença que a geração anterior, até a especiação. Uma espécie biológica é um grupo de indivíduos com potencial para se reproduzir e gerar descendentes férteis. Indivíduos de espécies diferentes não podem cruzar entre si. Uma especiação ocorre quando parte da população de uma espécie é isolada, e evolui até não ser mais capaz de cruzar com a população original. Por fim, devemos compreender que Evolução não é um progresso, mas sim uma mudança, geralmente no sentido de adaptação ao ambiente.

Darwinismo:

O Darwinismo baseia-se na seleção natural, que por sua vez, significa, simplesmente, sucesso reprodutivo diferenciado, isto é, a seleção natural é o mecanismo que determina os índices diferenciados de reprodução e sobrevivência relacionados às populações de organismos reprodutores, considerando que suas proles possuem tamanhos variados. A chave de toda a teoria, que faz toda a mágica acontecer, é justamente essa. A seleção de indivíduos a cada geração e determinando as direções das mudanças evolucionárias. Qualquer teoria evolutiva à luz da biologia teria que contar com um mecanismo dessa espécie, porém, para que a seleção natural funcione, certas condições têm que ser atendidas. A primeira delas é a reprodução, caso contrário, o jogo da vida teria que começar do zero a cada geração que morresse. A segunda é a hereditariedade, isto é, a prole deve se parecer com seus pais mais do que parece com a população em geral, caso contrário, os traços vantajosos de um genitor simplesmente se perderiam a cada nova geração, inviabilizando assim, a mudança evolucionária.

Foi a ausência dessa condição que fez do lamarckismo uma teoria inviável. Por último, deve haver uma variação interna à população. Mesmo que as duas primeiras condições sejam preenchidas, se todos os indivíduos de uma população forem fenotípica e geneticamente idênticos, a seleção natural não poderia operar, pois devido a igualdade dos indivíduos, as gerações seriam idênticas entre si. Por isso, Darwin dedicou os dois primeiros capítulos de seu livro "A origem das espécies" sobre o tema. Há também as condições sob as quais a seleção natural tem que ocorrer e são todas facilmente submetidas à verificação empírica. É possível observar a reprodução dos organismos, os mecanismos de hereditariedade já foram compreendidos, a ocorrência de variação pode ser bem estabelecida, et cetera. Encarar a teoria da seleção natural dessa maneira mostra que, longe de não ser verificável, ela é, na verdade, uma necessidade lógica derivada de um certo número de observações simples. Se essas condições existirem, logo, a seleção natural será, necessariamente, a consequência. Essa é a distinção entre evolução e seleção natural: a seleção natural é o mecanismo de mudança condicionada e a evolução é o resultado dessas condições, ou seja, a própria mudança em si. Também é necessário atentar ao fato de que o acaso possui extrema importância na seleção natural, fato este que afasta qualquer possibilidade de condução divina do processo evolutivo nos moldes do Darwinismo. O fato de que elas variam explicam a enorme diversidade de formas de vida, bem como o próprio padrão da evolução. Então, recapitulando:

Mecanismo: Seleção natural ou sucesso reprodutivo diferenciado.

Limitações: Genética, meio ambiente e história.

Consequências: Evolução e adaptação.

Condições: Variação, hereditariedade e competição.

Neodarwinismo:

O neodarwinismo, ou Darwinismo moderno, trata de uma teoria atualizada com as recentes descobertas sobre hereditariedade. Segundo essa teoria, três fatores explicam o mecanismo da evolução: Seleção natural, Mutação e Recombinação gênica, que ocorre quando há a mistura de genes de indivíduos diferentes de uma população. Com a recombinação ocorre o surgimento de genótipos novos sem a ocorrência de mutações. Tanto a mutação quanto a recombinação são mecanismos responsáveis pela variabilidade genética, ou seja, a diferença genética entre indivíduos, oriundas do surgimento de novos alelos e novas combinações de genes.

O ser humano como espécie:

Os humanos são apenas uma espécie numa família que inclui até vinte espécies, numa ordem que contém vinte ou mais famílias vivas e muitas outras já extintas. E essa ordem (os primatas) é apenas uma das mais de vinte e cinco ordens de mamíferos. Poderíamos continuar nessa diversidade até chegarmos ao que se estima serem as bilhões de espécies existentes no planeta hoje, sem contar as extintas. Os hominídeos fósseis nos mostram que o passado foi povoado por formas intermediárias. Elas são os elos perdidos que todos tanto citam. Eles nos fornecem as provas diretas de que a evolução ocorreu, e do rumo tomado por ela, bem como bases para testar e refutar teorias específicas sobre a evolução biológica humana. Eles são, claro, a base comparativa correta para pensar os humanos como eles são, hoje. E o mais importante: eles fornecem os indícios sobre o contexto específico no qual ocorreu a evolução humana e seus detalhes, como época, lugar, fatores estes que determinaram o rumo tomado pela evolução.

Em termos evolutivos, é relativamente difícil diferenciar os seres humanos dos seus parentes próximos, os chimpanzés. Vocalizações, linguagem, tecnologia e organização social, mesmo que em níveis diferentes, estão presentes em grupos de primatas maiores. Mas então, como nos diferenciar? O cérebro humano é uma característica marcante e diferenciadora no que se refere ao restante do reino animal. Ele pesa aproximadamente 1.400 gramas. De modo geral, seu peso está estreitamente relacionado ao peso corporal total de um animal. Curiosamente, se nós, humanos, tivéssemos um cérebro do tamanho esperado para um animal de nosso porte, ele teria que pesar cerca de 500g. Darwin, em "A linhagem do homem", catalogou similaridades entre humanos e outros animais, especialmente primatas, desde traços digestivos até morais.

Na perspectiva evolucionista, ocorreu o que conhecemos como a evolução do biológico para o tecnológico, transformando os humanos no que são hoje: fazedores de ferramentas, caçadores, coletores, tudo resumindo a natureza humana. Casas, alimentos, armas, jogos, tudo isso, em certa medida, implica tecnologia, mesmo que simples. Esse é um dos diferenciais dos seres humanos com relação aos outros animais. Ainda que este conceito já tenha sido refutado, devido a observação de mecanismos tecnológicos similares entre diversos animais, continua a ser uma importante distinção. Embora a complexidade do reino dos primatas seja inegável, incluindo caças, organizações, comportamentos complexos e sofisticados, existem três graves problemas de cunho filosófico que a evolução biológica e os métodos comparativos não podem responder: valores morais, consciência e cultura, que serão abordados ao decorrer do artigo.

O Darwinismo e o comportamento humano:

As primeiras tentativas de aplicação dos conceitos darwinistas às ciências sociais culminaram em diversos problemas e este ponto continua a ser uma pedra no sapato. Em outras palavras, o Darwinismo ofendia a todos e sua oposição veio de todos os lados: da esquerda política, por levantar a possibilidade de determinismo genético e biológico; da direita política por solapar os valores tradicionais da sociedade e dos intelectuais por aquilo que eles viam como uma simplificação excessiva, a tentativa de reduzir a complexidade social ao resultado de ações individuais instintivas e egoístas. Pensadores como Hebert Spencer tentaram introduzir o Darwinismo sem sucesso, revelando a face politicamente inaceitável da ciência.

O Darwinismo social:

Os darwinistas sociais, por exemplo, colocaram boa parte da ênfase nos grupos sociais e étnicos, por meio dos quais a evolução ocorreria, gerando a ideia de que a competição entre grupos era a arena primária da luta pela sobrevivência darwiniana. Ideias como essas foram responsáveis por originar conceitos de supremacia racial, utilizados por personagens históricos como Adolf Hitler.

Evolucionismo Social e Cultural:

O evolucionismo social é resultante de uma aplicação do evolucionismo biológico ao nível de estruturação das sociedades humanas. É uma teoria onde as sociedades são julgadas pelo seu nível de progresso, de desenvolvimento. Fazendo assim com que a sociedade mais “evoluída” se torne a sociedade do “eu” e a outra, exatamente assim, a do “outro”. E, portanto, a mais importante, a de mais valor para ser estudada é a mais avançada. Da mesma forma, com relação à cultura, a história do homem seguiu, desde sempre, um mesmo caminho, linear e progressivo. Analisando algumas condições entendidas como universais, pode-se traçar o caminho realizado pelo homem desde seus primórdios até os dias de hoje, evidenciando uma diferença temporal entre aqueles que ainda não possuíam determinados estágios desenvolvidos. O problema é que ideias como progresso e evolução linear são totalmente equivocadas.

Lévi-Strauss, em seu ensaio "raça e história", argumenta que a diversidade cultural nos apresenta algumas peculiaridades, como o próprio entendimento de culturas distintas. Mesmo que duas culturas venham à existência a partir da mesma raiz, ainda assim, não diferem da mesma forma que duas sociedades que em nenhum momento do seu desenvolvimento mantiveram quaisquer relações. Isso quer dizer que duas civilizações que nunca tiveram contato entre si, diferem de maneira mais objetiva que duas civilizações que compartilham suas origens. Isto significa que a diversidade cultural consiste em um fenômeno natural resultante das relações diretas e indiretas entre as sociedades, não sendo, portanto, passível de evolução linear, pois devemos lembrar que a diversidade não é um processo estático e não devemos analisa-la de forma fragmentada.

Embora a diversidade cultural seja caracterizada como um fenômeno natural, ela acaba por gerar conflitos entre sociedades distintas, nos forçando a argumentar acerca de uma atribulação psicológica e corriqueira: o etnocentrismo. Uma das atitudes mais antigas do mundo, que tende a reaparecer em cada um de nós quando somos postos sob pressão, consiste em repudiar, irracionalmente, formas culturais, morais, religiosas, sociais e estéticas mais afastadas daquelas com que nos identificamos. Este ponto de vista ingênuo e irracional, mas profundamente enraizado na maioria dos homens, não necessita ser discutido uma vez que esta é precisamente a sua refutação. Basta observamos o paradoxo implícito no raciocínio: Esta atitude do pensamento, em nome da qual se expulsam os "selvagens" (ou todos aqueles que escolhemos considerar como tais) para fora da humanidade, é justamente a atitude mais marcante e a mais distintiva destes mesmos selvagens. Por fim, hierarquizar culturas e sociedades à luz do evolucionismo, além de irracional, é perigoso.

Valores morais e consciência:

Estes são considerados os maiores problemas do naturalismo, haja vista que, por ser uma questão metafísica, sua resposta fica a cargo da filosofia, não sendo, portanto, passível de análise à luz do método científico. Em uma cosmovisão naturalista, nós apenas seríamos condicionados sociobiologicamente a achar algumas coisas certas e outras erradas. Uma questão de pura sobrevivência. Se não agíssemos como se matar fosse errado, a sociedade seria um caos e a sobrevivência individual estaria comprometida. Valores morais, no sentido transcendente e objetivo, não existiriam na realidade, dando lugar às ilusões pessoais de cada indivíduo baseado em suas experiências subjetivas (ler artigo "O dilema moral do ateísmo"). O problema aparece quando nos deparamos com uma situação de julgamento moral, como um estupro. Estuprar uma criança nesse cenário, por exemplo, não seria errado, sendo apenas uma atitude desvantajosa. Não faz sentido enxergar o estuprador como um monstro dentro do ateísmo e nem Madre Tereza como uma boa mulher. Cada um escolheria o que é melhor para si, visto que o único valor objetivo nestas condições é a sobrevivência.

A consciência humana, também objeto de estudo da metafísica, está igualmente presente neste paradigma, na condição de instrumento de valoração e senso moral. A consciência é responsável por julgar realidades objetivas (o bem e o mal) como o são verdadeiramente. Assim como a moralidade, a consciência não é passível de evolução biológica, visto que não são meros processos químicos, pois se fossem, haveria determinismo e, consequentemente, ausência de livre-arbítrio, bem como um padrão moral objetivo pré estabelecido biologicamente para seguirmos à risca e assegurarmos nossa sobrevivência. Porém, o sacrifício pelo próximo (um ato considerado de extrema benevolência) refuta facilmente esta ideia. Afinal de contas, se a moral possui origem biológica, como poderia existir um comando moral que vai, justamente, de encontro à lei mais fundamental da natureza (sobrevivência)?

Referências bibliográficas:

[1] STRAUSS, Lévi : Raça e História;

[2] FOLEY, Robert: Os humanos antes da humanidade;

[3] http://www.evo.bio.br;

[4] DARWIN, Charles: A origem das espécies;

[5] DARWIN, Charles: A linhagem do homem;


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25 comentários:

  1. Muito bom seu blog! Quase sempre encontro questões teológicas ( da própria denominação, igreja ). Um particular: acho que o maior problema na questão intelectual com Deus, é por que estamos numa cultura de projeção, projetamos nossas característca em Deus e no mundo! Eu vejo muitos irmãos de fé, QUERENDO que o seu entendimento ( muito mais a imagem/visualização ) seja o literal! Me admirei quando Craig falou que Agostinho já fornecia argumentos para não termos o relato literal, nesse aspecto por que há pontos que são muito notáveis, no literal mesmo ) e ,aos quando os pais da igreja tbm e vim descobrir que Maimonides também!!!!!!!! Eu a pouco tempo li um artigo do David Stove, um agnóstico,e ele mostrava alguns problemas com essa generalização que a teoria de Darwin vem ganhando!
    Bom já me estendi por demais! Obrigado!

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    1. Realmente, generalizações podem ser um grave problema. Obrigado pelo comentário!

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  2. http://m.youtube.com/watch?v=EiZGO_u2Mt4

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    1. Krauss deve ter em mente que a homossexualidade não tem valor de julgamento objetivo, mas apenas inferências subjetivas. O que podemos dizer, de fato, é que é desvantajoso à sobrevivência. A finalidade das espécies à luz da seleção natural é a reprodução. Não é à toa que a mesma é conhecida também por sucesso reprodutivo diferenciado. Canibalismo, pedofilia, tudo isso também está presente no reino animal, porém, há diferença nos seres humanos devido aos valores morais que somente nós temos a capacidade de reconhecer. Por que adotar os outros comportamentos não é válido enquanto a homossexualidade é?

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    2. A homofobia não é objetivamente uma atitude reprovável?


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    3. Ao meu ver, é desnecessária à sobrevivência, assim como outras práticas que encontramos na natureza.

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    4. Estou falando do ponto de vista ético

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    5. Do ponto de vista ético não consigo enxergar problemas, porém, os indivíduos que argumentam a favor da homossexualidade natural devem, antes, responder qual é a diferença objetiva entre essa prática e as outras encontradas na natureza, haja vista que também somos parte dela.

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    6. Acredito que haja apenas o comportamento bissexual (Que surge por sentimentos subjetivos por parte do indivíduo), não creio que seja algo fisiológico. Se conheces genética, me corrija caso eu esteja errado.

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    7. Exatamente. Na natureza só há o comportamento bissexual. Não há homossexualidade na natureza.

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    8. Até alguns homossexuais concordam (Óbvio que não os militantes).

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    9. Isso significaria que não há base genética alguma para a homossexualidade, certo?

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    10. O comportamento bissexual é presente nos animais por qual causa? Sabe a causa para a assexualidade?

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    11. Na maioria dos casos, à luz da observação do comportamento de alguns símios, a bissexualidade aparece no cenário como uma expressão de dominância, submissão e poder com relação aos outros machos, por exemplo. Já a homossexualidade entre espécies do sexo feminino não é sequer documentada. Com relação à assexualidade, acredito que a origem seja psicológica e esteja estritamente relacionada ao ser humano, haja vista a inexistência do mesmo comportamento em outros animais. O que há no reino animal como um todo que mais se aproxima disso é a reprodução assexuada, que ainda assim, trata-se de reprodução. São indivíduos geneticamente idênticos entre si que reproduzem cópias. Esses indivíduos só terão patrimônio genético diferente se sofrem mutação gênica, ou seja, alteração nas sequências de bases nitrogenadas de um ou mais nucleotídeo. É só isso.

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    12. Em outras palavras só há o comportamento homossexual masculino em outras espécies, certo?

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    13. http://hypescience.com/10-animais-que-praticam-a-homossexualidade/

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    14. Comportamento homossexual somente entre seres humanos. O que há na natureza é o comportamento bissexual.

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    15. As descrições no link, além de falaciosas, são muito mal interpretadas. É algo a se ignorar.

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    16. Mas você está pressupondo que são falaciosas ou o link se contradiz? Ou são fontes não confiáveis?

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    17. São falaciosas porque todos, dentre todos os animais listados há a reprodução. Homossexuais não reproduzem, mas somente bissexuais e heterossexuais. Ainda assim, justificam comportamentos tidos como "homossexuais" (entre os leões, por exemplo) em total discordância com a realidade. Da mesma forma que o comportamento bissexual em sociedades símias serve para demonstrar poder e dominância, assim também o é entre leões. Eu poderia falar muito sobre isso, mas seria irrelevante. Além do mais, pessoalmente, eu não gosto do hyperscience, haja vista a grande quantidade de material sem referência, sensacionalismos, más interpretações e tendenciosidades.

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  3. Ele é físico, não biólogo, portanto, de fato, não teria propriedade alguma para falar ou opinar sobre o assunto.

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  4. Mas poderia responder meu questionamento, por favor?

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