Antropoceno: a era colossal dos humanos

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O Antropoceno

É chegado o momento em que a humanidade, finalmente, marcou sua passagem na história natural. O homem, enquanto espécie cultural, foi capaz de transformar de forma inigualável e irreversível o ambiente. As mudanças foram tão grandes que se comparam aos maiores fenômenos geológicos dos quais temos notícias. Civilizações que deixaram tantas ou mais marcas que um processo de erupção vulcânica, terremotos ou erosões. O ser humano é, indubitavelmente, uma força de transformação planetária, comparável até mesmo ao meteoro que dizimou os dinossauros há cerca de 66 milhões de anos, segundo a Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS). Em função desse fato, está em vigor uma proposta para a adoção oficial do Antropoceno, a "era dos humanos", no sistema de divisão do tempo geológico do planeta, sucedendo, portanto, o Holoceno. As mudanças ocasionadas pela humanidade têm consequências até então inimagináveis. Impactos são sentidos tanto na geologia como na própria seleção natural.

Estamos vivenciando uma época em que os processos geológicos da Terra foram transformados de tal forma que estamos criando um novo tipo de geologia, um novo estrato com fósseis e um novo padrão da química nas rochas. Geólogos do futuro, certamente, notaram que algo aconteceu, que mudou drasticamente o curso da história natural, tal como o meteoro que atingiu a Terra e extinguiu os dinossauros há milhões de anos. A seleção artificial faz-se majestosa como a comissão de frente da humanidade: manipulações genéticas; recombinações de DNA; clonagem. O homem conduz o processo com o objetivo de selecionar características desejáveis em animais, plantas e outros seres vivos. Como resultado, o aumento da produção de carne, leite, lã, seda ou frutas. A produção de diversas raças domésticas de cães, gatos, pombos, bovinos, peixes e plantas ornamentais. É uma seleção em que a luta pela vida fora manipulada pela escolha humana.

Elementos radioativos espalhados pelas explosões das primeiras bombas atômicas perdurarão por muitos e muitos anos, bem como a alta concentração de dióxido de carbono (CO²) preso nas calotas polares e geleiras glaciais pelo mundo. Embora os exemplos já citados sejam de pouca relevância em uma escala de tempo geológico, outros materiais não o são. Neste grupo, encontram-se as alterações na biosfera, tanto com o extermínio de espécies de animais e plantas em uma velocidade somente vista em extinções massivas do passado, quanto com a sua redistribuição pela superfície da Terra. Essas mudanças seriam vistas, no futuro, como sendo distintas e, até mesmo, radicais. São, de fato, mudanças permanentes e irreversíveis. Este conjunto de eventos únicos estão mudando drasticamente o curso da história natural de forma que todos os fósseis nos estratos acima da camada do impacto são diferentes. Segundo recentes estudos publicados na revista Nature, o impacto da humanidade é capaz de adiar em até 100 mil anos o início da próxima Idade do Gelo. Lembrando que o último ciclo glacial acabou há 11,7 mil anos.

Segundo as pesquisas sobre o impacto climático realizadas na Alemanha, seria esperado um novo ciclo de resfriamento no futuro, porém, as constantes emissões de CO² com a queima de petróleo, carvão e gás estão levando a civilização a transpassar essa fase. Os cientistas citam ainda que as mudanças provocadas pela ação do homem na Terra podem interferir no ciclo natural do carbono pela queima de combustíveis fósseis. No futuro, a química presente nas rochas indicará as alterações na forma como o carbono circulou pela Terra, com uma composição isotópica diferente do ciclo original. Este é mais um exemplo da magnitude das ações provocadas pelo homem. Na lista de evidências duráveis também está o que o grupo de cientistas da ICS batizou de tecnofósseis: restos fossilizados dos produtos tecnológicos. São rastros de plástico, cinzas, fuligem e concreto que serão reconhecidamente diferentes de tudo que existia ou aconteceu no planeta antes.

Talvez, os cientistas do futuro não reconheçam um computador fossilizado, mas perceberão que o contorno de seu monitor, por exemplo, é muito diferente de uma concha ou osso fossilizado. O homem, cujo poder cognitivo foi adquirido pela evolução gradual de seu cérebro, superou e domou o mecanismo que o fez ser quem é. Todos os elementos das diversas civilizações mundanas dispostas e diversificadas no tempo, um dia, servirão como um quebra-cabeças àqueles que habitarão o futuro, de modo que vos deixaremos por descobrir a história de uma espécie sem igual: o homem colossal.

Imagem: Jason de Caires Taylor, “Vicissitudes”.

Andrei S. Santos

Graduando em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense


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44 comentários:

  1. De fato, fizemos muitos coisas de ruim ao planeta até ao ponto de prever o clima segundo a meteorologia, né?

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  2. Colocando em dicussão o assunto sobre ficção científica, e se os seres humanos indiretamente, sem tomar conciencia do fato, estão criando a evolução tecnológica, hipoteticamente no futuro criar a inteligência artificial (AI) e consequetimente seres artificiais dotados de inteligência e que serão os substitutos da vida biológica.

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    1. É uma hipótese muito interessante e logicamente concebível. No entanto, a substituição da vida biológica é algo extremamente improvável, haja vista que estes necessitariam se reproduzir, sobreviver, tomar decisões coerentes, ou seja, vencerem a espécie humana como um todo. É realmente muito difícil que isso aconteça, mas é uma possibilidade.

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  3. Não, o surgimento da vida no planeta Terra também foi quase improvável, bem como o surgimento da inteligência nos seres humanos demorou milhares de anos para acontecer.

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    1. Quase improvável não, mas matematicamente impossível, segundo Hawking.

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  4. Os seres humanos são inocentes em prever o futuro, apesar de usar sua inteligência para calcular as chances de acontecer, não é possível prever o que chamamos de acaso, sendo levados pelo destino.
    Na minha concepção de ficção, os seres humanos estão sendo levados pelo modo de vida, o sistema capitalista na busca constate de lucro, desenvolve mais e mais tecnologia para automação de indústrias, que causa desemprego, e para conquistar mais consumidores. já que a mão de obra humana é cara, busca-se logicamente automação, mais ainda precisa-se de funcionários no gerenciamento, na tomada de decisões. É caro manter uma empregada no lar, e também de confiança.Já existe partes mecânicas que substituem membros e estamos crescendo no desenvolvimento de eletrônica para serem usados no corpo humano, tornando-se ciborges. Na exploração de Marte, que não tem condições de manter um corpo biológico, é preciso no futuro de autômatos que em um imprevisto decidam por si próprios. Creio que por pressão do capitalismo e consumismo, no futuro aparecerá, é um dos mistérios de Deus, a inteligência artificial e a singularidade tecnológica. Haverá o chipamento das pessoas para cadastro( CPF, identidade,CNH, residência e dados pessoais), para o controle da população. Não haverá dinheiro, simplesmente a presença da pessoa com o chip diante da máquina registará online. Seu carro notará sua presença e destravará e sua casa ou prédio inteligente obedecerá seu comando.Como em quase todos os lugares vão ter sensores de presença, os crimes serão mais esclarecidos. O porém que perderemos nossa privacidade, e quem não tiver o chip será suspeito, e terá dificuldade de comprar e vender. Como tudo esta relacionado, passado e futuro, alguns evangélicos serão perseguidos por se negarem a serem chipados, pois ele vão acreditar que o número da besta esta na mão ou na testa. Haverá mais desemprego,pois as maquinas substituirão a maior parte da mão de obra, o capital será concentrado na mãos de poucos, que usarão a força repressiva do Estado para controlar a população.
    Deus é a união de tudo, é o sistema que resulta da união de tudo em harmonia, tudo esta em movimento, evoluímos de seres biológicos simples, depois evoluiu a consciência como a parte mais importante, e estamos sendo usados por Deus para a criação da outra era, de seres artificiais conscientes, mais sem limitações de um corpo biológico ( oxigênio, alimento, ambiente inóspito), como a morte. Poderemos ser a semente que povoará o Universo, a evolução da consciência, chegando mais próximos de Deus.

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  5. Não existem causas posteriores a nada somente efeitos Né? Causas só podem ser coerentemente anteriores aos seus efeitos certo?

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  6. Quando analisamos cargas elétricas que estão em movimento retilíneo uniforme estamos falando de eletrodinâmica enquanto a eletrostática tem como objeto de estudo a análise de cargas elétricas em equilíbrio estático.

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  7. Por razões que são desconhecidas Deus permite o mal? Muito conveniente, hein?

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    1. A questão é que o mal não pode ser explicado pelo naturalismo e pode ser explicado pelo teísmo, é simples.

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    2. 1- calor é definido como uma forma de energia em trânsito.
      2- energia, por sua vez, significa a capacidade de realizar trabalho
      3- portanto, calor é a capacidade de realizar trabalho em trânsito

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    3. O mal esta na natureza, os animais mata e sofrem, mais estes não tem o discernimento moral do que praticam, agindo mais por instinto.Já os seres humanos foi evoluindo em sociedade, discernindo o que é certo e o que errado do passado ao presente. A religião influi muito no crescimento moral, criando leis para o convívio em sociedade. Para isto tem que limitar seus instintos, não podem fazerem tudo que querem, por emoção, ficando a cargo de um governo a punição dos infratores, para não se fazer justiça com as próprias mãos. O mal e o Bem é do senso critico do homem e é relativo a sua sociedade. Dependendo de sua cultura e época, valores de referência do que é mal e o que é bem mudam.
      A resposta da origem do mal estar em Deus, de onde se originou tudo, que sabiamente deu ao homem o livre arbítrio e consequentemente o direito de escolher segui-lo conscientemente, e não por ter apenas um lado.
      O Resultado do livre arbítrio, são duas forças opostas para escolher. È racional que quando se origina -se uma coisa, tem que nomear a parte oposta, como: luz e escuridão; doce e azedo; vida e seu oposto, a morte; saúde e doença. Tudo foi feito perfeitamente para ser assim, pela logica de Deus e os seres humanos não tem juízo suficiente para questionar a forma que a natureza funciona.

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    4. Discordo veementemente de alguns pontos. O mal não está na natureza, haja vista que ela, em si mesma, é moralmente neutra. Conceitos como bem e mal só fazem sentido com seres dotados de capacidade para fazer julgamentos morais e reconhecer valores externos e objetivos, ou seja: seres humanos. Não gosto de dizer que animais sofrem, mas que sentem dor. Sofrimento está um grau acima, isto é, pressupõe uma autoconsciência, a priori, em relação com a consciência de se estar na dor.

      Outro ponto que discordo é o suposto "instinto" humano. Isso não existe. Como bem ressaltou Lévi-Strauss, o ser humano nasce desorientado, ou seja, ele não possui orientação predeterminada que o concede determinadas habilidades. É importante não confundir instinto com necessidades biológicas.

      Outro ponto que discordo é acerca do bem e do mal. Em hipótese alguma são relativos. Segue um exemplo: um abortista é a favor do aborto porque acredita que é um direito da mulher, ao passo que um conservador é contra pois acredita que é assassinato. Perceba que a discussão se dá acerca do que é ou não é considerado assassinato, e não se o assassinato é algo bom ou mau. Obviamente, os dois consideram o assassinato como sendo algo ruim, no entanto, a discussão se dá na interpretação do que é bom ou mal, e não nos conceitos de bondade e maldade. Sugiro a leitura do meu artigo "O dilema moral do ateísmo" para melhor entendimento.

      Por fim, algumas ressalvas: mantenha-se coerente no que concerne ao tema dos tópicos de forma que possamos organizar melhor os debates, por favor.

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    5. Esse é um dos meus motivos de preferir exatas a humanas pois o entendimento do ser humano como ser é objetivo todavia sua interpretação é subjetiva coisa que praticamente não existem em ciências exatas. Abraços.

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    6. Daí resulta, portanto, a sua aparente dificuldade em compreender a natureza humana. Aos olhos das ciências naturais, o homem é um ser puramente biológico, isto é, mecânico. No entanto, essa abordagem é deveras reducionista e incorreta. Vou citar um exemplo que gosto muito, tal como consta na obra do antropólogo americano Clifford Geertz - A interpretação das culturas: Vamos considerar dois garotos piscando rapidamente o olho direito. Num deles, esse é um tique involuntário; no outro, é uma piscadela conspiratória a um amigo. Como movimentos, os dois são idênticos; observando os dois sozinhos, como se fosse uma câmara, numa observação puramente fenomenalista, ninguém poderia dizer qual delas seria um tique nervoso ou uma piscadela ou, na verdade, se ambas eram piscadelas ou tiques nervosos. No entanto, sabe-se que a diferença entre um tique nervoso e uma piscadela é grande, como bem sabe aquele que teve a infelicidade de ver o primeiro tomado pela segunda. O piscador está se comunicando e, de fato, comunicando de uma forma precisa e deliberada a alguém em particular. Esta comunicação simbólica é fruto de um acordo com um código socialmente estabelecido sem o conhecimento dos demais companheiros. Todavia, isso é apenas o princípio. Suponhamos que haja um terceiro garoto que, "para divertir maliciosamente seus companheiros", imita o piscar do primeiro garoto de uma forma propositada e pejorativa. Naturalmente, ele o faz da mesma maneira que o segundo garoto piscou e com o tique nervoso do primeiro: contraindo sua pálpebra direita. Ocorre, porém, que esse garoto não está piscando nem tem um tique nervoso, ele está imitando alguém que, na sua opinião, tenta piscar. Aqui também existe um código socialmente construído, só que agora não se trata mais de uma conspiração, mas de ridicularizar. Se os outros pensarem que ele está realmente piscando, todo o seu propósito vai por água abaixo, embora com resultados um tanto diferentes do que se eles pensassem que ele tinha um tique nervoso. Estas inúmeras formas de manifestação e comunicação simbólicas demonstram a superficialidade de uma visão puramente naturalista. Tem-se, portanto, uma descrição superficial, inadequada e ineficaz, contra uma descrição densa que, além de examinar o comportamento dos indivíduos, também visa desvendar os significados por trás do simbolismo das piscadelas. De modo a concluir, temos aqui uma irrefutável prova da importância do elemento cultural e da construção subjetiva e simbólica de conceitos para a humanidade. Espero ter ajudado na sua compreensão. Abraços.

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    7. Irrefutável? Você ofereceu suportes pra isso?

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    8. Certamente! A irrefutabilidade jaz justamente nos elementos simbólico-comunicativos das piscadelas. O argumento permanece irrefutável a menos que se prove que as piscadelas são mera e simplesmente um reflexo biológico, ao passo que não podem, em hipótese alguma, constituírem-se de quaisquer significados simbólicos e comunicativos. Em síntese, nesse cenário, quando uma garota piscar e sorrir pra você, ela não estará de forma alguma se comunicando simbolicamente, mas apenas estará sofrendo reflexos biológicos. Eu poderia citar outros milhares de exemplos que demonstram o emaranhado simbólico-cultural sob o qual o homem interage, mas acredito que este já seja mais que suficiente para elucidar e sustentar o argumento.

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    9. Em palavras leigas, uma piscadela não é somente uma ação involuntária de mecanismos físico químicos, tem algo a mais, né? É isso que tu tá defendendo, Andrei Santos?

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    10. Se for isso que tu estás defendendo, saiba que eu nenhum momento eu disse que ignoro as ciências humanas apenas quis dizer que o entendimento acerca do ser humano é objetivo mas sua interpretação é e sempre será subjetiva.

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    11. Andrei, eu não sou o mesmo anônimo que afirmou que o mal está na natureza, haja vista que esta é moralmente indiferente e talvez até inexistente em questões morais. Sou outro anônimo. Sou eu, cara, o Pedro Sá! Abraços!

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    12. Mas é claro que a interpretação será subjetiva, afinal, o nome já diz "interpretação". Tudo o que é interpretado é subjetivo, haja vista que a interpretação parte de nós mesmos. O entendimento do ser humano é dividido em três partes: ser biológico, ser psicológico e ser social/cultural. Não é a toa que Mauss dizia que nós somos seres biopsicossociais. No entanto, o emaranhado simbólico está presente até mesmo no ser biológico, mediante metáforas. Os genes são exemplos. É dito que eles carregam informações, no entanto, não é isso que ocorre. Na verdade, temos apenas processos físico-químicos traduzidos em uma metáfora simbólica. Nós necessitamos de metáforas e símbolos para compreender a realidade como um todo, bem como invocar sentidos a ela. Algo ser subjetivo não quer dizer, em hipótese alguma que seja irrelevante. Os exemplos que eu citei provam isso. Por fim, levei o debate até aqui porque você pediu para eu demonstrar os suportes. No mais, abraços.

      "Em palavras leigas, uma piscadela não é somente uma ação involuntária de mecanismos físico químicos, tem algo a mais, né? É isso que tu tá defendendo, Andrei Santos?"

      Exatamente isso que quero dizer.

      Pedro Sá, Abraços!

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  8. Obrigado pelo esclarecimento, não sabia que coisas subjetivas possuíam importância.

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  9. No argumento lógico do mal, como tentativa de se provar que Deus não existe, alega-se que as seguintes proposições são inconsistentes:
    (1) Existe um ser omnipotente, omnisciente, e moralmente perfeito;
    (2) Existe mal.
    Mas para se mostrar que o conjunto {(1), (2)} é inconsistente, i.e. Que os membros desse conjunto não podem ser ambos verdadeiros em qualquer circunstância ou mundo possível será preciso mostrar que há uma contradição explícita nesse conjunto ou que daí se pode deduzir uma contradição explícita. P.e. Considere-se o conjunto {P, ~Q, P→Q}. Ora, utilizando regras elementares da lógica, conseguimos chegar à contradição de P&~P ou de Q&~Q. Portanto, não basta afirmar que o conjunto {(1), (2)} é inconsistente; para se provar isso terá de se mostrar que esse conjunto tem uma contradição explícita, como P&~P, ou que desse conjunto se deduz uma contradição explícita. Ora, no conjunto {(1), (2)} não se tem uma contradição explícita, nem partindo apenas dos seus membros originais se deduz tal contradição. Deste modo, para se chegar a uma contradição será preciso acrescentar a esse conjunto outras proposições que sejam necessárias. Que proposições são essas? Uma proposta comum entre os ateus é acrescentar a seguinte proposição:
    (3) Um ser omnipotente, omnisciente, e moralmente perfeito extingue todo o mal.
    Agora, o que se argumenta é que o conjunto {(1), (2), (3)} é inconsistente, pois leva a uma contradição explícita. Isto porque de (1) e (3) deduz-se que "não há mal" e juntamente com (2) deduz-se que "há mal e não há mal", i.e., conclui-se uma contradição explícita. Mas será que isto mostra que o conjunto original {(1), (2)} é inconsistente? Só o mostrará se (3) for uma verdade necessária, pois (1) e (2) podem ainda assim ser ao mesmo tempo verdadeiras nas circunstâncias ou mundos possíveis em que (3) seja falsa. Assim, para se estabelecer a contradição no conjunto em questão, (3) terá de ser uma verdade necessária, i.e., a proposição (3) tem de ser tal que não seja possível uma circunstância, ou mundo possível, na qual ela seja falsa.
    Mas será (3) uma verdade necessária? Parece que não, pois podemos facilmente conceber que há um estado de coisas bom B de tal forma relacionada com um estado de coisas mau M, e que supere esse mal, que é impossível que B exista e M não exista. Tal como, por exemplo, o ato de perdoar a alguém uma má ação pode ser um bem que supera o mal cometido que se perdoa, ou o ato de suportar corajosamente uma doença pode ser um bem que por vezes supera o mal dessa doença, entre outros. Ora, perante tais casos, se um ser bom e omnipotente eliminasse M, então eliminava B. Mas, é possível que um tal ser não pretenda eliminar B (pois esse B supera M, bem como pode suceder que seja melhor B existir do que não existir de todo); logo, um tal ser bom e omnipotente permite M. Com isto mostra-se que (3) não é uma verdade necessária e, assim, não fica provado que o conjunto original {(1), (2)} é inconsistente. Em suma, o argumento ou problema lógico do mal não parece funcionar uma vez que nem sequer se consegue mostrar com sucesso uma contradição explícita.

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  10. O argumento ou problema lógico do mal não parece funcionar uma vez que a proposição (3) não parece uma verdade necessária. Isto porque há situações em que o mal é uma condição necessária para um determinado bem importante (como em casos de perdão, coragem, etc). Por isso, é falso dizer que Deus é incompatível com qualquer instância de mal ou sofrimento. Além disso, também se pode argumentar que Deus, se existe, pode ter uma razão moralmente justificada para permitir algum mal. Nesse caso, não é uma verdade necessária que Deus iria eliminar todo o mal. Assim, o argumento lógico do mal não é bem sucedido.
    É verdade que para contornar esta objecção ao argumento lógico do mal é possível que o ateu tente reformular o argumento e apresente uma nova proposição para se chegar à contradição, como a seguinte:
    (4) Um ser omnipotente, omnisciente, e moralmente perfeito elimina todo o mal, a menos que tenha uma razão moralmente justificada para permitir o mal.
    Ora, esta proposição (4) leva à contradição explicita entre Deus e o mal só se a seguinte proposição é uma verdade necessária:
    (5) Não há uma razão moralmente justificada para um ser omnipotente, omnisciente, e moralmente perfeito permitir o mal.
    Contudo, dada a nossa situação epistêmica e dado o que sabemos, nada impede a possibilidade de que:
    (6) Há uma razão moralmente justificada para Deus permitir o mal, uma razão que nós não conhecemos e ele permite que, por essa razão, ocorram instâncias de mal.
    Note-se que (6) implica a negação de (5). Assim, nada do que sabemos impede a possibilidade que (5) seja falsa. Ora, se isto é o caso, então a incompatibilidade entre (1) e (2), i.e., entre Deus e o mal, não é provada por (4) e (5). Além disso, uma vez que nada do que sabemos impede a possibilidade de (1) e (6) serem ambas verdadeiras, e a conjunção de (1) e (6) implica (2), segue-se que nada do que sabemos impede a possibilidade de (1) e (2) serem ambas verdadeiras. Deste modo, dado a nossa situação epistêmica e aquilo que sabemos, (1) e (2) são compatíveis. Se isto é o caso, então mais uma vez o argumento lógico do mal não é bem sucedido.

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  11. O ateu assume sem fornecer nenhuma base que Deus e o mal não podem existir ao mesmo tempo.
    Este é um erro lógico que chamamos de petição de princípio ou raciocínio circular.
    Consiste em admitir antecipadamente o que é o objeto que está em questão.
    Isso está na cara quando o ateu afirma que não há uma razão moralmente justificada para Deus permitir o mal.
    Como ele sabe disso?
    Ele está somente pressupondo!
    É possível que Deus exista.
    1- Mas o mal existe.
    2- Deus iria eliminar todo o mal.
    3- Deus iria eliminar todo o mal, a menos que tenha uma razão para permitir o mal.
    4- Não há uma razão para Deus permitir o mal.
    5- Logo, Deus não existe.
    6- Mas existe uma razão para Deus permitir o mal, um motivo que nós não conhecemos e ele permite que, por essa causa, o mal exista.

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  12. 1- É possível que Deus exista.
    2- Mas o mal existe.
    3- Logo, Deus não existe.
    Comentários acerca do argumento:
    1- Conclusão errada
    2- Deus e o mal podem existir ao mesmo tempo porque não são explicitamente contraditórios
    3- O ateu deve provar que a existência de ambos simultaneamente seja impossível

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  13. 1- Deus iria eliminar todo o mal, a menos que tenha uma razão para permitir o mal.
    2- Não há uma razão para Deus permitir o mal.
    3- Logo, Deus não existe.
    Comentários acerca do argumento:
    1- Conclusão errada
    2- Não é uma verdade necessária que Deus iria eliminar todo o mal.
    3- EXISTE OU NÃO EXISTE UMA RAZÃO? O ateu tem que provar que não existe uma razão para Deus permitir o mal, portanto, a conclusão a respeito de Deus ESTÁ ERRADA.
    4- O ATEU ADMITE DE ANTEMÃO QUE DEUS NÃO POSSUI RAZÕES, OU SEJA, COMETE PETIÇÃO DE princípio

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  14. Ideias existem por necessidade de sua própria natureza?
    Mas um ser absolutamente bom cometer ações más não é uma contradição?

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    1. Ideias são contingentes, dependem de seres pensantes para existir. E um ser absolutamente bom não comete ações más. É uma impossibilidade lógica.

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  15. Pressupor ou implicar sem proporcionar nenhum suporte ou apoio para sua afirmação é besteira.

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  16. Emoções e sentimentos são subjetivos?

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  17. Deus é a origem de tudo, somente ele é perfeito, as outras são imperfeitas por serem pequenas partes incompletas do todo. Ao originar algo primariamente, é lógico que consequetemente vão surgindo outras que se interligam e seus opostos para que se tenha equilibrio entre forças. O mal e o bem é fruto da consciencia humana, seus valores morais que foram construidos durante sua história em sociedade, com influência da relegião, que resultaram em leis para a convivência em harmonia.
    Os animais brigam e matam, fazem sexo sem pudor, roubam alimentos dos outros, mais guiados por seus instintos, sem conciência moral do que praticam. Já os seres Humanos contruiu o seu senso moral, e separou, criando a noção do que é o mal e o que é o bem.
    A consequência da origem de algo, surge seu oposto para contrastar, destingui, prescisando um do outro para o equilíbrio. Exemplos de dualidades: vida e morte; luz e escuridão; amor e ódio, etc.
    Logo Deus deu o livre-arbítrio aos seres humanos, a CONSCIÊNCIA. Deixamos de sermos inocentes, para decidimos por nós mesmos, e o efeito colateral foi a questionar e ter ciência das coisas, a noção de mal e bem. Isto não é ruim, pois promove o raciocínio, e evolução dos seres humanos, como esta acontecento com grande variedades de pensamentos.
    Nada faz mal a Deus, ele é inatigível, tudo que se originou dele volta para ele. Todos nós temos um destino a cumprir, um trabalho a realizar, para continuarmos evoluindo.

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  18. O que Nietzsche estava querendo dizer ao afirmar a morte de Deus?

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    1. Estava querendo cantar a vitória do subjetivismo moral, basicamente.

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    2. Poderia explicar em detalhes mas resumindo?

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  19. o método cientifico pode provar a existência de seres humanos?

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    1. A ciência pode provar que somos seres humanos, mas, no que tange à realidade: cogito ergo sum. Essa bola está, portanto, no campo da filosofia.

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  20. Andrei vc conhece o canal ciclista cético? Ele debate com teísta, até agora apenas cristãos... Pq vc n chama ele para um

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    1. Não conheço, mas irei procurar por ele, certamente.

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  21. Ok, ele tem alguns videos interessantes até (youtube)

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