Meditações Existenciais: O Absurdo da Vida e o Suicídio

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O Absurdo da Vida e o Suicídio: uma introdução ao pessimismo e seus desdobramentos no absurdismo, existencialismo e niilismo

"Existe apenas um único problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida significa responder à questão fundamental da filosofia."

Albert Camus

Atenção: este artigo não incita, em hipótese alguma, o suicídio. O mesmo tem como objetivo a análise de problemas filosóficos postulados por nomes como Mainlander, Schopenhauer, Albert Camus, Nietzsche e outros existencialistas.

É com essa célebre frase, proferida por um dos maiores filósofos do absurdismo, que damos início ao diálogo sobre o absurdo da vida e o suicídio. Ao longo de toda a história humana, o homem procurou incansavelmente um sentido para a vida. Diversos questionamentos vêm à tona diante da plenitude da existência: se a morte está em pé com os braços abertos ao final da trilha da vida, qual é o objetivo da vida? Que significado supremo pode nos ser dado? Que importância real tem a nossa existência? Por que eu estou aqui? Quem sou eu? Para a filosofia, "O Absurdo" se refere ao conflito entre a tendência humana de buscar significado inerente à vida e a inabilidade humana para encontrar algum significado. Nesse contexto, "absurdo" não significa "logicamente impossível", mas "humanamente impossível". Em suma, trata-se da impossibilidade de alcançarmos um sentido para a vida. O universo e a mente humana não causam separadamente o Absurdo, mas este surge pela natureza contraditória de ambos existindo simultaneamente.

Somente através de um olhar puramente naturalista é possível compreender a inerente desgraça da condição humana. Nesse cenário, a fragilidade humana é contemplada no mais alto grau quando nos damos conta que não temos a resposta para uma simples questão: por que existimos? Ao meditarmos sobre a natureza e analisarmos friamente a nossa condição existencial, nos percebemos em um pesadelo sem igual: se é o universo o responsável pela nossa existência, eu e você somos um subproduto acidental da natureza, resultado de uma soma de matéria, tempo e acaso. Não há razão alguma para que existamos e tudo o que nos espera é a morte. Em nossas mentes, tínhamos que, ao expulsarmos Deus do plano da existência, também nos livraríamos de tudo aquilo que nos reprimia e coibia. Em vez disso, descobrimos da pior maneira que, ao matarmos Deus, também matamos a nós mesmos. Nas palavras de Nietzsche, como nós, assassinos de todos os assassinos, consolaremos a nós mesmos? Logo, as perguntas retornam a nós: que significado supremo pode nos ser dado? Que importância real tem a nossa existência? Por que eu estou aqui? Quem sou eu? A verdade é que não faz nenhuma diferença.

Não há nada que possa preencher o vazio que é a nossa vida. Nós somos, portanto, desafiados a aceitar que não somos mais que um recipiente descartável. Acima de tudo, somos como prisioneiros condenados à morte, aguardando nossa execução inevitável. No romance A máquina do tempo, do escritor inglês H. G. Wells, a gravidade de nossa condição existencial fica, mais uma vez, em evidência. O viajante do tempo criado por Wells segue rumo ao futuro distante para descobrir o destino do homem. No entanto, tudo que encontra é uma terra morta, exceto por alguns liquens e musgos, orbitando em torno de um gigantesco sol vermelho. Os únicos sons que ecoam são o do vento soprando e a gentil ondulação do mar. O mundo estava em silêncio. Todos os sons produzidos pelo homem, o balido das ovelhas, o trilado das aves, o zumbido dos insetos, a agitação das cidades que compõe o cenário de nossa vida, tudo isso havia deixado de existir para sempre. E, assim, o viajante do tempo de Wells retornou. Mas voltou para onde? Bem, para um mero ponto anterior à corrida despropositada rumo ao esquecimento. Esse é o cenário inevitável e perturbador que enfrentamos. Alguns existencialistas, como Sartre, defendem a construção subjetiva de valores para suportarmos o absurdo da vida. No entanto, por que deveríamos nos esconder em um castelo de ilusões se estamos em busca da verdade?

Aparentemente, não há como fugir. A humanidade é uma espécie condenada à destruição num universo em um processo lento e doloroso de morte. Uma vez que a humanidade deixará finalmente de existir junto a tudo aquilo que criou, não faz nenhuma diferença se ela algum dia realmente existiu. A humanidade é, portanto, não mais importante do que um enxame de mosquitos ou uma manada de porcos, pois o fim de todos eles é o mesmo. Esse mesmo processo cósmico cego que nos lançou à existência, no final, nos engolirá de novo totalmente. Logo, a pessoa a quem chamamos de “eu” deixará de existir, não será mais. Nesse cenário, um único ser humano ou mesmo toda a espécie humana é insignificante, sem propósito e irrisória a ponto de não mudar em nada a totalidade da existência. Dada esta circunstância, a própria existência e seus efeitos (toda a ação, sofrimento e sentimento) é, em última instância, sem sentido e vazia. Albert Camus, a título de exemplo, foi um dos poucos que abordou corajosamente o que ele considera ser a causa maior existencialista: será que a realização da plenitude e absurdo da vida exigem suicídio? À luz das questões éticas, devemos nos ater não àquilo que os homens estão fazendo, mas, sim ao que devem fazer. Dito isso, a questão que nos importa não é o porquê de os homens se suicidarem, mas se devem ou não fazê-lo.

O suicídio, diz Sartre, é errado porque é um ato de liberdade que destrói todos os atos futuros de liberdade. É uma afirmação do ser mediante a qual a pessoa finalmente nega seu ser. É, pois, um ato próprio que traduz-se em uma tentativa de renegar-se; é a escolha que elimina todas as escolhas. O suicídio é baseado no desejo do homem de ser aliviado do tipo de existência que tem. Conforme disse Santo Agostinho, o suicídio é um fracasso da coragem, é o "escapismo" existencial. Do mesmo modo, Flusser, filósofo tcheco naturalizado brasileiro, ressalta que o suicídio é, portanto, uma espécie de metafísica, uma espécie de truque teológico que consiste em uma tentativa desonesta e covarde de escapar do absurdo. Albert Camus, por sua vez, nos diz que é preciso continuar vivendo e convivendo com o nojo e a náusea, dia após dia, momento após momento, para viver o mais possível, já que não se pode viver o melhor possível. Somente assim, devorando quantidade em vez de qualidade, é possível encarar honestamente o absurdo da vida.

Ora, se todos os nossos sonhos e esperanças repousam no nada e somos meros acidentes do acaso, empurrados na existência sem razão alguma, que motivos temos parar continuar a viver? Se todos nós não passamos de um bocado de lodo que evoluiu racionalmente; se somos um aborto da natureza, lançados num universo despropositado para viver uma vida sem propósito, mas repleta de dor e sofrimento por que não nos libertarmos? A conclusão, mais uma vez, nos desafia: se o verdadeiro fim natural da ação humana não é a satisfação do prazer, mas a exclusão da dor, morrer é libertar-se. Se nós somos, de fato, seres racionais, não seria apropriado evitarmos toda a dor e sofrimento? Não seria sensato adiantar um resultado final já estabelecido? Afinal, mais irracional do que lutar contra uma vida absurda, é vivê-la. O filósofo alemão Philipp Mainländer, consciente que a vida não possui valor, nos indaga: seria o não-ser melhor que o ser?

Se há na vida a supremacia do mal sobre o bem, sendo o mal a privação dos meios de conservação da vida (alimentação, abrigo, etc) e a guerra de dores entre seres humanos, a balança tende ao não-ser? Segundo Schopenhauer, a pior coisa que pode acontecer a alguém é nascer. Afinal, vida é, em grande parte, sofrimento: você sofre perdas, se decepciona e adoece. Ora, se a vida fora despedaçada pela indiferença de um universo sem sentido e a dor consome o que resta dela, aparentemente, só nos resta uma saída, a qual Schopenhauer nos conduz: a esperança de salvação para o homem somente pode ser encontrada na renúncia ao mundo e a todas as suas solicitações, na mortificação dos instintos, na auto-anulação da vontade e na fuga para o nada. Percebam que, de uma forma ou de outra, o universo termina em nada. E, uma vez que ele termina em nada, o homem não é nada. Desta forma, a unidade do mundo se apresenta na escolha do ser primordial de nada ser. Aniquilar-se completamente. Desistir de ser.

Não há, no universo, razão alguma para acreditarmos que nós, seres humanos, sejamos objetivamente mais valiosos do que ratos. Se não há, em nós, algo como uma alma; se mente e cérebro são a mesmíssima coisa, tudo quanto pensamos e fazemos é determinado pela percepção dos nossos sentidos e pela nossa estrutura genética. Não há livre-arbítrio. Sem liberdade, nenhuma de nossas escolhas realmente importa. São como os gestos espasmódicos dos membros de uma marionete, controlada pelos cordões da percepção sensorial e da constituição física. E que valor tem uma marionete e seus movimentos? Nós, habitantes do vazio, somos reles seres mecânicos - porém sensíveis - fadados à dor e ao sofrimento. Algumas vezes, ocorre em nós surtos ilusórios de moralidade - como um desejo desesperado de emergir à superfície dos valores em busca de sentido - mas que logo desaparecem no ar. Novamente submersos no abismo absoluto, somos obrigados a conviver com os fatos nus e sem valor da existência.

A angústia de nossa existência alcança o apogeu quando nos percebemos no palco do universo estrelando o teatro do absurdo. Uma atuação mórbida, insignificante e cruel de marionetes presas a situações sem solução; forçadas a executar ações repetitivas ou sem sentido, com quadros não necessariamente conectados, que se alternam entre a comédia e a tragédia. Logo, o pano cai. É tudo. Isso é o homem: um ser absurdo. Não se pode escapar do ser, senão pela livre escolha de não mais ser. A redenção humana, portanto, passa a ser traduzida no objetivo de redimir-se de suas dores e angústias. Ao nos libertarmos da agonia de ser, abdicamos da pessoa a quem chamamos de “eu”, a qual deixará de existir, não será mais. Aqui jaz a porta de saída de um mundo de dores e pavores, onde a maior das dores é compreender o absurdo da vida.

Em conclusão, aparentemente, não há muitos motivos para que continuemos a suportar o absurdo da vida, de modo que os que há, são, no máximo, ilusões que ajudam a maquilar a cruel indiferença da dita realidade. Em contrapartida, há motivos razoáveis para que possamos nos libertar da dor e do sofrimento, bem como para adiantarmos um resultado inevitável. Todavia, se há a mínima hipótese da existência de um sentido ou propósito maior que nós, certamente, é nele que devemos nos segurar com todas as forças. Se há na vida algo maior que a mera sobrevivência, há motivos reais para a não aniquilação. Se há beleza no mundo, conforme Camus nos aponta, há pelo que viver. Se há possibilidade da vida do homem não terminar na sepultura, há esperança.

Se Deus de fato existe, ainda há, igualmente, objetivo. E se há objetivo, há sentido. Deste modo, ironicamente, a esperança para nós, teístas ou ateus, reside na existência de Deus. Somos, de fato, como um pássaro em seu primeiro voo. Convivemos diariamente com a desconfiança e a ameaça da tragédia, todavia, devemos observar que esta é a maior prova de que sentimos e vivemos, à medida que a angústia existencial desperta em nós uma estranha paixão. Ao contemplarmos a superfície da morte e todo o seu absurdo, intuitivamente - ou contra-intuitivamente - sabemos que somos capazes de saltar e planar, e o fazemos, principalmente, porque nossas asas são feitas de esperança. Uma última vez, deixemos que Camus resuma, brilhantemente, a nossa frágil condição:

"A grande parte da nossa vida é construída sobre a esperança do amanhã, do amanhã que nos aproxima da morte, e é o último inimigo; pessoas vivem como se elas não tivessem a certeza da morte; uma vez despojado do romancismo comum, o mundo é um estranho e desumano lugar; o verdadeiro conhecimento é impossível de ser explicado pela racionalidade da ciência em favor do mundo: suas histórias, em última análise, no sentido de abstrações, se dão em metáforas. Desde que o momento absurdo é reconhecido, ele se torna a mais angustiante de todas as paixões."

Albert Camus

Referências Bibliográficas:

[01] Albert Camus - O Mito de Sísifo (1941)

[02] Albert Camus - O Estrangeiro (1942)

[03] Albert Camus - A Peste (1947)

[04] Jean-Paul Sartre - O Existencialismo é um Humanismo (1946)

[05] Jean-Paul Sartre - Entre Quatro Paredes (1944)

[06] Jean-Paul Sartre - A Náusea (1938)

[07] Nietzsche - A Genealogia da Moral (1887)

[08] Nietzsche - A Gaia Ciência (1882)

[09] Philipp Mainländer - A Filosofia da Redenção (1894)

[10] Schopenhauer - As Dores do Mundo (1850)

[11] Schopenhauer - O Mundo como Vontade e Representação (1819)

[12] Santo Agostinho de Hipona - De Civitate Dei (1483)

[13] Vilém Flusser - O Mito de Sísifo de Camus (2008 - Folha de S.Paulo)

[14] Imagem: freeitas.deviantart.com

Andrei S. Santos

Graduando em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense


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