O Valor Moral dos Animais: uma breve análise

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O Valor Moral dos Animais


Após observar muitos debates e embates entre veganos, vegetarianos e carnistas, me senti compelido a escrever sobre isso, no intuito de oferecer algumas visões sobre o assunto ou contribuir de alguma forma para o enriquecimento do debate. Em meio à guerra de opiniões, uma imagem que viralizou no Facebook levanta a seguinte questão: por que amar um animal e comer o outro? Ou ainda: como podemos amar um animal e comer o outro? Para um melhor entendimento, vou dividir minha resposta em partes:

Primeiramente, devemos ter em mente que fomos biologicamente condicionados a consumir carne. Devido à pressão ambiental (condições climáticas hostis) e, como consequência dela, a escassez de alimentos, a carne foi cotada como o alimento mais promissor à sobrevivência dos nossos ancestrais (dado o seu conteúdo energético), o que fez o consumo da carne fosse adotado como estratégia adaptativa (curiosamente, no início, os hábitos de nossos ancestrais eram necrófagos).

Em um dado momento, o hábito de comer carne se tornou uma prática cultural, indicando uma estreita relação entre cultura e ambiente. Os seres humanos, ao contrário dos outros animais, não parecem ser biologicamente determinados a reproduzir o mesmo tipo de comportamento com relação ao consumo da carne. Nós, ao invés disso, escolhemos os tipos de carne, suas formas de cozimento, seus tamanhos seus temperos, visando suprir algo além da necessidade de se alimentar para sobreviver, indicando, efetivamente, elementos da cultura humana.

Chegamos, então, ao ponto principal: a diversidade das práticas culturais em relação ao ambiente parece ter nos levado a comer variados tipos de carne (lê-se animais). Todavia, a mesma relação "ambiente X cultura" nos aponta que existem diferenças marcantes não somente a nível de alimentação, mas também a nível de relacionamento. Isso nos indica, portanto, que a cultura é um dos fatores que ajudam a definir o que consideramos ou não como alimento.

Mas afinal, existe algo especial nos animais que faça com que seja errado comê-los? Não parece ser o caso. Ora, quando um leão se alimenta de uma lebre, não parece haver nada de errado no ato. Então, por que quando nós o fazemos é errado? Isso nos indica que não parece existir algum direito inerente aos animais, tampouco algo de errado no ato de consumi-los, mas sim na forma como nós, seres humanos, nos relacionamos com eles.

Isso se torna evidente quando observamos as "escalas de valor moral" criadas - talvez inconscientemente - para os animais. Ora, se eles possuem valor moral, necessariamente, a vida de um cão tem o mesmo valor que a vida de uma lacraia ou uma barata. Mas a nossa experiência cotidiana nos diz o contrário. Poder-se-ia aqui, ainda, argumentar que o critério para o valor moral é a senciência (lê-se a capacidade de sentir dor), mas, caso fosse, muitos de nós não possuiriam valor moral (lê-se as pessoas que sofrem da síndrome de Guillain-Barré).

Ainda assim, há quem diga que os animais, por serem agentes morais, possuem valor moral. Segundo os defensores dessa ideia, os animais teriam seu valor moral assegurado porque participariam de toda essa "trama moral" que envolve nós, humanos, e eles, haja vista que nos relacionamos constantemente. Seria a relação, portanto, que os tornaria moralmente importantes. O problema com essa afirmação é que agentes morais devem possuir, necessariamente, responsabilidades morais, a consciência de se estar no tempo (noção do passado, presente e futuro), além - é claro - da capacidade de avaliar, emitir e ponderar juízos de valor, características estas que parecem ser exclusivas de seres humanos.

Ao que parece, a resposta para essa complexa questão está em nós (especificamente na nossa tendência em antropomorfizar os animais), e não neles. No entanto, alguém poderia, ainda, objetar que é nítido que todo mundo se compadece ao ver um cachorro sendo espancado por um ser humano, sendo esta razão suficiente para entendermos que os animais são moralmente valiosos. Mas, afinal, que motivos temos para pensar que isso é um indicativo de que há algo de moralmente valioso neles? Eu ofereço pelo menos três respostas que nos dizem o contrário:

(1) Intuitivamente, parece haver uma grande diferença entre atropelar um esquilo e sair andando e atropelar uma criança e fugir. E aqui a diferença parece se dar a nível moral, e não a nível de espécie ou a nível legal. Isso não deveria levantar suspeitas?

(2) Tendemos a criar "escalas de valor moral" - talvez inconscientemente - para os animais. Ora, se eles possuem valor moral, necessariamente, a vida de um cão tem o mesmo valor que a vida de uma lacraia ou uma barata, mas a nossa experiência cotidiana nos diz o contrário.

(3) Parece ser mais coerente admitirmos que o compadecimento está relacionado à forma como nós tratamos os animais, e não a alguma propriedade metafísica contida na natureza deles, como constantemente se assume. E a razão pela qual isso ocorre pode estar na nossa tendência em antropomorfizar os animais.

Em tempo: antropomorfismo significa atribuir aos animais pessoalidade, tais como sentimentos e comportamentos tipicamente humanos. Em outras palavras, enxergamos neles "seres humanos".

A partir desse ponto, eu argumento que a escala de valor moral citada anteriormente tem como medidas extrema-opostas o animal como "ser humano" e o animal que pode servir como alimento (sem nenhum valor moral). Essa escala seria, portanto, milimetrada pelo grau de antropomorfização que atribuímos a um animal X. Dito isso, a antropomorfização parece ser a responsável por enxergamos nos "animais humanos" o assassinato (nota-se a conotação moral do ato) enquanto enxergamos, nos animais mais abaixo na escala, a mera morte ou o próprio alimento (tal como um sapo, uma ostra ou uma lesma).

Talvez, a atitude de antropomorfizar os animais não seja proposital ou má intencionada, sendo realizada apenas para melhor assimilação de uma determinada situação. A título de exemplo, costuma-se atribuir aos cães a depressão. Todavia, esse diagnóstico parece ser impreciso, visto que a depressão (ao menos como ocorre nos humanos) requer a consciência de se estar no tempo e refletir sobre si mesmo em relação ao passado, presente e futuro, diante das situações da vida enquanto um agente moral. Nota-se, então, que é muito mais que uma desordem sentimental.

Em conclusão, o valor moral de um determinado animal se mostra intimamente relacionado ao grau de antropomorfização que atribuímos a ele, o que é curioso, pois, se enxergamos nos animais que estão no topo da escala de antropomorfização um "semelhante", significa que temos receio de "ferir aos nossos". Dito de outra maneira, matar um animal que reside no topo da escala de antropomorfização seria quase como assassinar um semelhante. O problema, no entanto, é que a atribuição de valor é um ato de caráter subjetivo, tal como nós atribuímos valor a uma cédula de papel. Nesse sentido, mesmo que "deleguemos" o valor moral aos animais, isso não fará com que sejam moralmente valiosos (este é um problema também para os que se dizem ateus e acreditam no valor moral dos animais - ler o artigo "O Dilema Moral do Ateísmo").

De modo geral, essa forma de pensar parece explicar bem o fervor e a dedicação com que muitos defensores dos direitos dos animais agem, sobretudo quando são confrontados com argumentos como os que foram aqui apresentados. Mas no final das contas há um ponto de convergência entre os veganos/vegetarianos e os carnistas: todos os seres humanos possuem valor moral, independentemente de onde você os enxerga.

Andrei S. Santos


Antropólogo (Universidade Federal Fluminense) e Mestrando em Bioarqueologia (Museu Nacional / Universidade Federal do Rio de Janeiro).


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