A Cultura da Morte: do fascínio à desilusão

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A Cultura da Morte

Muito me intriga esse fascínio mórbido pela morte, cada vez mais evidente na contemporaneidade. Aqui, eu não pretendo emitir nenhum juízo de valor, mas apenas constatar fatos e suscitar questões: duas das guerras mais letais da história da humanidade; atentado massivos; tragédias televisionadas; justiçamentos; aborto; infanticídio; eutanásia; suicídio assistido e agora a baleia azul. Mata-se os filhos, mata-se os pais, mata-se a si mesmo. Ora, que vontade é essa de matar e morrer? Se o século XX foi o período onde a morte se tornou uma divindade, no século XXI ela é adorada. Afinal, vive o ser humano uma cultura naturalizada da morte?

A cada dia que passa, mais casos de jovens suicidas vêm à tona, os quais optam por não mais ser, frente aos problemas que compõem a vida. Mães que abortam seus filhos com toda uma gama de justificativas. A utilização da eutanásia surge como “alívio” definitivo a um sofrimento tido como insuportável. A violência urbana que mata mais que as guerras civis de muitos países. Justiçamentos brutais e impiedosos que eclodem nas vielas de toda a nação e atraem uma multidão de espectadores e incitadores. Pessoas que simplesmente cansaram de viver as dores do mundo e cogitam, assistidas, deixá-lo de forma dramática. Indivíduos tomados pelo desespero que, em um ato irracional - porém irrevogável - se jogam do mais alto arranha-céu sob os gritos de apoio de uma multidão que, lá debaixo, observa e anseia ávida o desfecho de corpo em queda livre.

O que há de tão grave no mundo que faz com que as pessoas queiram deixar de ser tudo e passar a ser nada? Ou ainda, o que há de tão grave nas pessoas que faz com que o mundo gire em torno da morte, assim como um grupo de pessoas rodeia um corpo estirado no chão de alguma favela? O quão bizarro e atraente é o espetáculo da morte? Certamente, é popular o suficiente para ser capa dos principais jornais do mundo e tema central de muitos filmes hollywoodianos. A morte fora coroada e posta em seu devido trono pelos seus escravos. Sob sua regência, os homens perpetraram massacres de fazer inveja a qualquer cavaleiro do apocalipse. E, assim, caminha a humanidade, levando as "boas novas" aos quatro cantos do mundo, pelas mãos ensanguentadas de seus missionários.

É chegado o tempo em que o direito à vida dá lugar ao direito à morte. A dignidade fora dissociada do viver e aliada ao morrer. Aos que vivem sob o domínio da violência, da pobreza, da falta de recursos socioeconômicos, cabe um irônico prêmio de consolação: a mesma sociedade que negou-lhes o pão, o emprego, a saúde e a educação, oferece-lhes a mais alta tecnologia para o “bem morrer”. Não obstante, sob o aval da ética utilitarista, tem-se a justificativa que faltava para ratificar o culto à morte. A decisão não mais se restringe a mera escolha de viver ou morrer, mas, acima de tudo, se estende a quem deve compreendê-las, a saber, idosos, deficientes e mentalmente incapazes.

De fato, a morte é a divindade mais adorada dos dois últimos séculos, e a cultura que serve como templo para o culto, jaz na imagem do então mundo. Tamanha é a desilusão do homem consigo mesmo que a auto aniquilação ocorre a níveis inacreditáveis. A cultura da morte é a cultura da desistência, da conformidade e da rendição incondicional sob o subterfúgio da liberdade. Ela se baseia em três grandes máximas: Eu posso. Eu quero. Eu vou. Proferidos os dogmas, o ser passa a não mais ser. Ora, desejaria a humanidade o próprio fim? Seria este um processo inconsciente se tornando, finalmente, consciente?

O que há a ser feito, afinal? De acordo com a Encíclica "O Evangelho da Vida", de São João Paulo II, o homem é chamado a uma plenitude de vida que se estende muito para além das dimensões da sua existência terrena, porque consiste na participação da própria vida de Deus. São João Paulo II nos dá a arma que precisamos para vencer a cultura da morte, pois morte se combate com vida. Ora, será que a decadência da Europa e sua convergência com o declínio do Cristianismo no Ocidente é uma mera e infeliz coincidência? Seria, afinal, o valor da liberdade superior ao valor da vida?

Estou inclinado a pensar que a resposta para as duas perguntas é negativa. É sabido que os templos da vida vêm dando lugar às ruínas da morte, tanto pelas mãos dos soldados do Estado Islâmico quanto pelas mãos do governo francês. Sem os arcos inigualavelmente belos e a acústica perfeita das catedrais góticas, onde ecoarão as palavras de João Paulo II? Do mesmo modo, onde se manifestará a liberdade humana se não há vida? Parece-me que o único caminho para se superar a cultura da morte é, portanto, entendermos que fomos feitos para a vida. A morte, tão extravagante, somente serve para engrandecer a vida, e, junto a ela, seus portadores. Ora, pois, se a vida nada significasse, a morte seria um evento superficial, sem alarde, sem choro e sem dor.
Andrei S. Santos

Graduando em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense


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